sexta-feira, 9 de setembro de 2016

Muitas homenagens

Sinval de Itacarambi Leão, diretor da revista Imprensa, teve a gentileza de me convidar para estrear uma nova seção no Portal Imprensa. O texto foi publicado hoje e está no link

http://portalimprensa.com.br/noticias/opiniao/78240/nemercio+nogueira+do+instituto+vladimir+herzog+estreia+a+secao+sinval+convida


sábado, 21 de maio de 2016

Verdade (?)

Saia já correndo e vá assistir a Conspiração e Poder, principalmente se você é jornalista ou trabalha em algum ramo de Comunicação. É bem melhor que Spotlight,  também muito bom e que ganhou o Oscar.

O filme levanta, com tensão de história de suspense, diversas questões como a precisão jornalística na apuração de informações, checagem de fontes, o valor e o custo do jornalismo na televisão, a relação de dependência entre governantes e empresas de TV (concessão pública).*
Não vou aqui contar a história do filme (vá procurá-lo), mas, em resumo, pouco antes da eleição presidencial de 2004 nos EUA, a produtora Mary Mapes, do programa 60 Minutes, da CBS, os jornalistas de sua equipe e o consagrado âncora Dan Rather foram investigados e a seguir demitidos por terem publicado uma reportagem indicando que o presidente George W. Bush, que concorria à reeleição, havia escapado à convocação para servir na guerra do Vietnã, por ter sido favorecido por oficiais da Guarda Aérea Nacional do Texas.
À parte os dramas pessoais (Cate Blanchett faz o papel de Mary Mapes e Robert Redford é Dan Rather), algumas questões em que o filme faz pensar:
1.      A obrigação de checar e rechecar exaustivamente a veracidade de suas informações, seja você jornalista, profissional de Comunicação ou de qualquer outro ramo de atividade;
2.      A necessidade de ter uma atitude cética para com a acurácia dessas informações, nunca cedendo ao desejo, esperança ou crença de que elas estejam corretas; sempre procurar pelo em ovo, ter vontade de achar os erros e as falhas;
3.      Não abrir mão desse dever por pressão do tempo, do chefe ou do cliente; a rigor sua reputação depende mais da precisão e eficácia do que de cumprir horário;
4.      O dever de todos de coibir o favorecimento dos poderosos às elites, a fim de purificar a democracia – seja qual for a elite, qualquer o lugar no mundo e através de toda a História;
5.      A imbricação de interesses entre governantes e empresas de mídia, com reflexos sobre a liberdade de imprensa, o direito da sociedade à informação e a oligopolização do mercado publicitário e da opinião pública;
6.      O poder crescentemente avassalador da internet e das redes sociais e sua capacidade de patrulhamento e de destruição de reputações;
7.      A função social dos programas jornalísticos na televisão, apesar de seu alto custo de realização para as empresas de mídia. 
 *O filme é baseado no livro de memórias de Mary Mapes Truth and Duty: The Press, the President, and the Privilege of Power, que custa R$28,43 em edição Kindle na Amazon.

quarta-feira, 28 de outubro de 2015

Comunicação e controvérsias na perspectiva da comunicação integrada

Reproduzo abaixo um texto que escrevi, a pedido do Exército brasileiro, para o livro com o mesmo título, que acaba de ser publicado pelo CEP/FDC-Centro de Estudos de Pessoal e Forte Duque de Caxias. Situada no Morro do Leme, Rio de Janeiro e completando neste ano 50 anos de existência, essa é uma das poucas organizações militares com missões diversas de ensino, pesquisa, avaliação psicológica e preservação ambiental e histórica. O CEP/FDC vem trabalhando também pelo aprimoramento dos processos e do ensino no Exército, ao mesmo tempo em que colabora para a reformulação de práticas, políticas e diretrizes.

       Em 1999, quando a popularização do uso da Internet tinha começado havia apenas uns quatro anos, publiquei um livro chamado Media Training, contendo orientações para o relacionamento de representantes de empresas e organizações com os jornalistas, que compreende um último capítulo, intitulado “O Fim da Comunicação Social”.

Nesse texto, 16 anos atrás, eu afirmava, entre outras coisas, que, “no Brasil, a comunidade que utiliza a Internet – que tem dobrado de um ano para o outro – já correspondia, em Agosto de 1999, à população da segunda maior cidade brasileira. Oito milhões de pessoas, espalhadas por vários estados, sentadas à frente de seus computadores individuais, em casa ou no escritório, já constituíam, naquela data, população maior que a do Rio de Janeiro e só inferior à de São Paulo.”

Entre parênteses, observe que, de Agosto de 1999 a meados de 2013, essa população passou de oito milhões para 105 milhões, mais da metade dos habitantes do Brasil – e ninguém precisa mais de um computador para navegar na Internet: um celular basta. E logo, provavelmente, nem esse aparelhinho será mais necessário.

Escrevi também nesse mesmo texto que, devido ao avanço da Internet, “aquilo que nós nos acostumamos a chamar de ‘grande imprensa’ – no Brasil, jornais como Estadão, Folha de São Paulo, O Globo, Jornal do Brasil e revistas como Veja, Isto É, Época etc. – está em vias de perder sua presença dominante e sua imensa capacidade de influência. Porque não será mais o jornalista ou o jornal quem decidirá o que é notícia, mas sim cada pessoa que possua um computador. Hoje uma assessoria de imprensa que consiga a inclusão de determinada notícia de um seu cliente em todos esses sete veículos é um sucesso extraordinário. Amanhã essa façanha pode não ter significado tão especial, pois o valor relativo dessas publicações será muito menor.”

Afirmei ainda, naquele mesmo capítulo de Media Training: “Cada vez será mais necessário que o trabalho de divulgação seja realmente integrado com a função maior de Relações Públicas, de tal forma que os textos transmitidos aos diferentes setores específicos dos públicos-alvos (não necessariamente através do que hoje chamamos ‘imprensa’, mas mais diretamente), para divulgar as marcas de produtos e serviços, sejam relevantes para cada fatia do público. Caso contrário, não atingirão objetivo algum.”

Quando meu livro foi publicado, há quase duas décadas, época em que a Internet ainda engatinhava, fiquei temeroso pela ousadia dessas previsões. Afinal corria o risco de, com o tempo, ver a realidade desmenti-las todas.

Feliz ou infelizmente, porém, o que se tem observado é sua confirmação. Como ocorre no livro recém-publicado “Journalism and PR – Newsmedia and Public Relations in the Digital Age”, dos acadêmicos britânicos John Lloyd e Laura Toogood, em edição do Reuters Institute for the Study of Journalism da Universidade de Oxford (disponível no site Amazon.com.).

Os autores do livro afirmam, por exemplo, que “a internet é a maior fonte das mudanças que agora observamos entre os ofícios complementares do jornalismo e das relações públicas. A facilidade de acesso a ela, sua vasta memória e seus imensos bancos de dados tornam todas as atividades mais transparentes, forçando todas as organizações a ter maior abertura. A mídia social amplia a transparência – e abre uma demanda infinita pelo engajamento em todos os níveis, dos poderosos grupos empresariais aos próprios indivíduos. Esse fato valoriza imensamente um constante fluxo de mensagens de entidades e pessoas proeminentes, tanto de forma proativa como reativa.

“Reputações – prossegue o livro – não mais são construídas ou perdidas num diálogo diário entre os profissionais de relações públicas e os da mídia. Em vez disso, na primeira metade do século 21, ambas as partes estão redefinindo seus papéis – e seus modelos de negócios – para uma nova era da informação, em que nenhuma delas põe em prática as estratégias e táticas que empregavam no passado.”

O importante de tudo isso – pois o acerto das previsões que fiz em 1999 só vale para gratificar minha vaidade pessoal – é que qualquer pessoa que milite hoje em Relações Públicas sabe que nosso mundo mudou radicalmente e nos coloca diante de vários desafios para os quais estamos ainda tateando para encontrar soluções. Até porque sabemos também que essas soluções que viermos a descobrir serão alvos móveis, cujas posições se alterarão no espaço e no tempo, passando a exigir ainda outras respostas.

O que nos remete ao título deste artigo, Comunicação e Controvérsias na Perspectiva da Comunicação Integrada, que inspira a enumeração de alguns dos principais desafios que se colocam perante os profissionais de Relações Públicas, seja quem atua na iniciativa privada ou no Estado, em grandes organizações ou em pequenas assessorias prestadoras de serviços.

O primeiro desses desafios é justamente, a meu ver, a interatividade, pulverização e convergência dos meios de comunicação, que conduz às necessidades de:
1.                conhecermos a fundo o funcionamento e os protagonistas principais das redes sociais, sabermos utilizá-las e dispormos das ferramentas adequadas para operá-las de forma eficaz para nossos objetivos de comunicação;
2.                dialogarmos com indivíduos cada vez mais, em vez de, como no passado, enviarmos mensagens unilaterais a grandes segmentos da população (“públicos-alvos”), por meio da imprensa;
3.                encontrarmos maneiras de atrair nossos destinatários para o que temos a dizer (porque fica cada vez mais difícil “atingí-los”, como se dizia no passado), em meio ao bombardeio permanente de mensagens que eles recebem ou podem acessar, por uma variedade de canais, inclusive os sites da grande mídia tradicional, as máquinas de pesquisa etc.

Um segundo desafio é o convívio que continua a existir entre esse novo paradigma eletrônico e os jornais, revistas, rádio e televisão, que, ainda que relativamente menos influentes, continuam a ter grande poder. Precisamos saber operar com a nova mídia, especialmente com as redes sociais cada vez mais abrangentes; e também, ao mesmo tempo, com os veículos tradicionais, com suas características específicas.

Aprendemos durante décadas a trabalhar com porta-vozes, que geralmente eram os principais responsáveis pela função de Relações Públicas. Pois essa figura clássica do porta-voz, a única pessoa que falava pela organização, não mais existe, ou melhor, deixou de ser única – e aí está mais um grande desafio para Relações Públicas nos nossos tempos. Precisamos nos acostumar – e trabalhar – com a ideia de que, além do porta-voz, que manifesta a palavra oficial de uma organização, todos os integrantes dessa entidade, seja empresarial, do serviço público ou do terceiro setor, passaram a também poder dar informações e opiniões (com autoria expressa ou no anonimato) sobre a organização em que atuam, na medida em que tenham acesso a um celular e à Internet.

Isso significa a necessidade de um trabalho intenso junto ao público interno, para que seus integrantes saibam se manifestar com propriedade e oportunidade sobre a organização. E eles só o farão se, em seu íntimo, estiverem identificados com os valores e a atuação da entidade, o que torna ainda mais complexo o desafio, nestes anos em que a impaciência dos jovens da geração Y se cruza com o fim da longevidade dos empregos. Essa valorização do público interno – que pode ser embaixador ou algoz de sua organização, dependendo da qualidade de seu relacionamento e identificação com a entidade a que pertence – se reflete até mesmo na evolução do nome do cargo dos gestores dessa área, que antigamente se chamavam gerentes de relações com empregados, passaram a gerentes de pessoal, depois de recursos humanos, ultimamente usam o cognome de gestores de pessoas.

Nessa esfera, a propósito, outro desafio com que nos defrontamos é a crescente despersonalização das organizações, devido a seu crescimento e complexidade cada vez maiores. Tempos atrás, elas tinham a proteção institucional de seus líderes de high profile: o “capitão de indústrias”, o grande banqueiro, o médico ou advogado famoso, o general por todos conhecido. As palavras desses atores tinham “peso”, credibilidade. Quando falavam por suas organizações, as pessoas prestavam atenção.

Atualmente, porém, essas figuras “maiores que a vida” não mais existem. Nas grandes empresas e entidades, a principal autoridade em geral não é mais o “dono”, mas sim um executivo contratado. Além disso, vigora uma rotatividade cada vez maior, inclusive internacional, nas posições executivas; e a dimensão e sofisticação das organizações não permitem que uma única pessoa possa falar com propriedade sobre todos os seus meandros.

Nas maiores empresas, aliás, esse processo de despersonalização alcança um nível ainda mais alto, em virtude de seu capital estar nas mãos de milhares de acionistas, em sua maioria ilustres anônimos, cujo único interesse é o rendimento trimestral de suas ações e para os quais o desempenho institucional da empresa de que são acionistas só passa a ter interesse em caso de crise de imagem e comunicação, porque isso deprecia o valor de suas ações e prejudica seus ganhos.

Para dar maior concretude a essa afirmação, tomemos um caso bem atual e que todos conhecem: a crise de imagem que assola a Petrobras devido às investigações da Justiça e da Polícia Federal. Os inúmeros acionistas nacionais e estrangeiros da empresa certamente nunca se preocuparam tanto como agora com a necessidade dela ter valores positivos e fortes, bem como de investir em comunicação institucional. Quando não há crise, acham que essas preocupações e esses investimentos “só dão despesa” e por isso diminuem o ganho financeiro dos acionistas, portanto devem ser reduzidos, quando não eliminados.

Coloquemos algumas cifras em mais esse desafio da comunicação institucional, causado pela concentração financeira e pela pulverização da propriedade das empresas, nas mãos de incontáveis e anônimos acionistas, para dar ideia concreta de seu imenso avanço. No livro “Media Training” registrei que “segundo a UNCTAD-Conferência da ONU para Comércio e Desenvolvimento, o número de fusões e aquisições entre grandes conglomerados internacionais, considerando apenas as operações superiores a US$3 bilhões, quadruplicou entre 1996 e 1998, passando de oito a 32 por ano e somando, neste último ano, US$600 bilhões.”

Pois aqui no Brasil, apenas em 2014, registraram-se nada menos de 879 fusões e aquisições, que movimentaram valor superior a US$108 bilhões. Esses negócios alcançaram naquele ano o maior número da História em nosso país – e prevê-se que esse nível deverá ser mantido em 2015. O que fatalmente terá como consequência uma dissolução ainda mais intensa da imagem institucional de empresas e marcas.

Relações Públicas, bem como outros serviços, como publicidade, advocacia, medicina, costumavam ter no passado um perfil de artesanato. Quando “o mundo era menor”, a sociedade e a economia menos complexas, destacavam-se individualmente os poucos profissionais excepcionais, que cuidavam pessoalmente de seus clientes ou empregadores, criando estratégias e soluções, liderando sua execução e garantindo seu sucesso. 

O crescimento e a maior complexidade de nossa sociedade e organizações tornaram obsoleto esse modelo – o que também gera um importante desafio de nossos dias. Os serviços de Relações Públicas atualmente precisam dispor de uma quantidade muito maior de pessoas (menos famosas), porque passamos do artesanato à produção industrial, o que significa muito maior investimento em recrutamento, seleção, treinamento e aprimoramento permanentes por educação continuada e manutenção de profissionais capacitados.

Em todos os países, democráticos ou não, as pressões da sociedade, que em poucos anos passou de uma atitude contemplativa para uma postura cada vez mais atuante e vocal, forçam as organizações a adotar crescentemente um perfil de sustentabilidade – e aqui encontramos um novo e intrincado desafio para os profissionais de Relações Públicas na atualidade.

Esse paradigma da sustentabilidade exige que a organização tenha uma atuação em conformidade com os padrões institucionais exigidos pela sociedade, em áreas como a ambiental; de relacionamento e diálogo aberto com seus funcionários ou servidores; de governança financeira, compliance e combate à corrupção; de interface com seus fornecedores; de respeito aos direitos humanos; de responsabilidade social e participação construtiva e ativa na melhora da qualidade de vida das comunidades em que atua etc.

Mais ainda: a sociedade demanda que as organizações sejam transparentes, forneçam informações exaustivas a seus stakeholders, as pessoas cuja vida depende dessas organizações ou delas recebem algum tipo de impacto. Essa transparência, que começa em informações financeiras que reflitam com precisão o estado da entidade, abrange todos os padrões institucionais exemplificados no parágrafo anterior e exige que a organização informe quais seus planos de ação em cada área e divulgue quais seus êxitos – e também quais seus fracassos – na implantação desses planos.

Por isso não têm mais serventia os antigos relatórios anuais, em que as organizações “mostravam o que é bom e ocultavam o que não deu certo”. Por causa dessa prática aquelas belas publicações em papel lustroso que se costumava fazer ganharam o pejorativo apodo de “folheto de RP”, por só conterem auto-elogios e por pintarem com cores positivas toda a realidade que se desejava divulgar de uma organização – sempre os fatos positivos.

A sustentabilidade – esse modelo cuja adoção se torna cada vez mais indispensável – requer ainda que a empresa ou entidade ouça seus stakeholders, indagando quais suas percepções e opiniões sobre a organização e a seguir divulgando publicamente os resultados obtidos. Os indicadores internacionais do GRI-Global Reporting Initiative e os brasileiros do Instituto Ethos aí estão para mostrar todos os critérios para avaliação da sustentabilidade de uma organização, seja ela privada ou estatal.

Mas os profissionais de RP, que compreensivelmente encaram com preocupação todos esses desafios propostos pelo paradigma da sustentabilidade, devem compenetrar-se de que eles constituem também, na verdade, praticamente um manual de Relações Públicas na melhor acepção da expressão, pois formalizam no mais alto nível o desempenho do papel social de uma organização, na medida em que fazem com que ela ponha efetivamente em prática – e divulgue – ações que se coadunam com as crescentes exigências da sociedade, especialmente nas democracias.

Finalmente, um último desafio que se coloca perante nossa profissão é a própria  qualidade dos praticantes que as escolas (e a Internet) colocam no mercado. Uma das maiores dificuldades com que se defronta quem precisa contratar jovens formados em Relações Públicas, é encontrar candidatos qualificados.

Hernâni Donato, um grande profissional de RP do passado, recentemente falecido, escreveu há muitos anos: “Pensa no homem de Relações Públicas desligado da representação, infenso ao brilho, autolimitado ao silêncio, versado na tática, na estratégia, na malícia, na balística verbal, no xadrez das informações e contra-informações, James Bond e Homem de Virgínia, Calligari e Michelangelo, getuliano, valadaresco, ederjofriano, Mequinho, Pelé e Gilmar. Que planifique, deflagre situações, levante tempestades, dissolva-as, pinte e borde, não ponha gelo no vinho tinto, sorria para a matrona que desembrulha um bombom ruidosamente durante a audição da Paixão Segundo São Mateus. Difícil, não é? Pois aí está.”

É esse perfil o procurado por quem precisa contratar um novo profissional. Claro que não se pode esperar que um jovem saído do curso de RP já seja tudo isso, que requer experiência, vivência, o aprendizado que vem dos acertos e dos erros. Mas é indispensável que mostre ao menos a promessa de vir a ser tudo isso. Que demonstre o potencial necessário para alcançar esse nível de sofisticação. Porque é o que o exercício profissional requer.

No entanto a maioria dos recém-formados está longe disso. Porque seu Português é pobre, quando não deficiente. Porque lhes falta leitura e prática da escrita – e também da fala em público. Porque em geral não sabem Inglês, o que é indispensável no mundo globalizado atual, em que é essa a língua franca. Porque não têm profundidade de cultura, qualidade de raciocínio lógico e a capacidade de procurar antever a terceira jogada seguinte e suas consequências, num jogo de xadrez (se é que sabem jogar xadrez; por isso têm grande dificuldade para planejar de forma eficaz). Porque não se interessam pela política ou a desprezam. Porque preferem mandar mensagens de e-mail do que falar pessoalmente ou telefonar.


E por aí vai. Claro que a maior responsabilidade por essas carências não é tanto da faculdade – ainda que lhe caiba uma boa parcela – mas sim do sistema educativo como um todo e dos níveis escolares anteriores, que, quanto mais se aproxima o vestibular, mais se concentram em inundar as cabeças dos estudantes com catadupas de informação, em detrimento de sua formação. Seja como for, lamentavelmente essa é a realidade dos nossos profissionais iniciantes e esse, a meu ver, é o maior de todos os vários desafios com que se defronta a profissão de Relações Públicas no Brasil.

sexta-feira, 28 de agosto de 2015

A Revolta dos Logotipos: É Hora de Relações Públicas Ir além da Rotina


(a partir de palestra apresentada 
na 3ª Conferência Aberje de Relações Governamentais, em 25 de Agosto de 2015)

Quando olhamos para o panorama atual no Brasil, que expõe empresas gigantes, envolvidas em mau comportamento confesso – algumas delas até mesmo em risco real de quebrar – não deveríamos os profissionais de Assuntos Institucionais, Relações Públicas e Governamentais, Comunicação Empresarial etc. ir além da burocracia e do dia-a-dia das estratégias, argumentos e ferramentas rotineiros?

Não estarão as instituições brasileiras subindo um ou mais degraus na escada de mudança de paradigma – e portanto não deveríamos também nós elevar o patamar de nossas atividades profissionais, no contexto maior de uma mudança histórica, para melhor, do quadro institucional do Brasil?

A corrupção começou no Paraíso, com a serpente, Eva e Adão – e nunca acabará. E no mundo moderno o chamado capitalismo de laços não desaparecerá totalmente de uma hora para outra.

Mas diversos episódios estão expondo as mazelas de tudo isso e envolvendo governos e empresas imensas. E, nesse processo, manchando como nunca antes as imagens dos agentes de governo e de todas as empresas. Porque, ao acompanhar as notícias, muita gente pensa: "Empresários e políticos são todos iguais".

Episódios como os mensalões do PT e dos tucanos, a Lava-a-Jato, FIFA e CBF, o cartel dos trens (Siemens, Alstom etc.), presidentes da Câmara e do Senado sob a mira de investigações, corrupção interna na Petrobras e Eletrobras (na Petrobras, a maior empresa do Brasil!) – e outros casos, fora os que ainda vão aparecer.

Enquanto isso, de outro lado, o que vemos é um Ministério Público independente, que praticamente passou a ser o quarto poder e derrubou a imprensa para quinto. Uma Polícia Federal atuante e autônoma nas investigações, rastreabilidade pelos computadores, e-mails confiscados, delações premiadas, acordos de leniência, fim do sigilo dos bancos suíços, o caso das contas no HSBC no exterior, revelações do Wikileaks, grandes empreiteiros atrás das grades, Lei Anticorrupção, Lei de Acesso à Informação, liberdade total de imprensa e de expressão.

Na política, o PSDB sequer consegue ser oposição, aparentemente por medo do risco de Dilma eventualmente recuperar sua popularidade e também de ser pego no contrapé pelas investigações. A propósito, é bom lembrar que a lei que institui a delação premiada – a que, no fundo, se deve o desenrolar de todo esse novelo – é obra do governo Dilma.

Entre as empresas, por sua vez, além das acusações de corrupção ativa e passiva que tisnam a reputação de algumas e respingam em todas, aqui e ali pipocam casos de trabalho similar ao escravo, trabalho infantil, assédio moral, discriminação de sexo, excessiva pressão por resultados e por produtividade criando um ambiente desumanamente estressante.

Assistimos à destruição das imagens do governo, de parlamentares, de empresas gigantes.

E, para quem acha que o Brasil tem o monopólio do descrédito institucional, vale lembrar que esse mal não atinge apenas empresas nacionais. O jornalista inglês Andy Robinson publicou há pouco o livro “Um repórter na montanha mágica”, sobre o Fórum de Davos, em que afirma que a elite empresarial global concentra uma parcela cada vez maior do patrimônio econômico mundial, gerando instabilidade e insustentabilidade, enquanto as empresas usam o evento de Davos para projetar imagem positiva.

O resultado de tudo isso não poderia ser outro, senão a indignação popular, desencanto, desgosto, pessimismo.

Os que cuidamos da imagem pública das empresas empregamos palavras de moda, buzz words como accountability, governança, compliance, narrativa, resiliência. Mas não precisaremos mais que isso?

Não teremos nós, profissionais de Relações Governamentais, Relações Públicas, Comunicação, que somos a cara política das empresas, o dever de transcender o feijão com arroz do dia-a-dia, em nome do melhor interesse delas próprias? Não é nosso dever convencer nossos clientes e empregadores de que um grande esforço conjunto precisa ser feito para resgatar a reputação do ente empresarial no Brasil?

Me ocorre que é necessário um choque institucional na relação entre empresas e governo e entre empresas e opinião pública, para recuperar e melhorar a imagem e reputação das empresas. O que essa situação atual aponta, me parece, é para a necessidade de uma evolução mais radical no posicionamento institucional das empresas.

Elas precisam ampliar muito sua credibilidade, via valores elevados e a comunicação estratégica e intensa desses valores. E também, elemento fundamental, devem implantar internamente sistemas e métodos que impeçam atos de corrupção – grandes e pequenos.

O reconhecimento desses valores elevados, pela opinião pública, fará cada vez mais a diferença, para o êxito nas Relações Públicas e Governamentais – e também no posicionamento institucional das empresas, até no seu Marketing.

Porque parece que a população acha que Chega de Esperteza.

Por isso, o ente empresarial em seu conjunto precisa, acredito, deixar de se arrastar como um caramujo a reboque da crise e tomar a iniciativa forte de mostrar um cerne, uma essência, que sejam positivos, institucionalmente saudáveis.

Não só anonimamente, por trás das siglas de suas associações, mas como empresas individuais – e também por seus setores e entidades associativas.

Esse processo deve começar por um exercício interno de formulação e formalização de valores morais: integridade, anti-corrupção, governança, respeito aos direitos humanos no ambiente de trabalho, promoção social da comunidade, relacionamento transparente com stakeholders, envolvendo todos os acionistas, dirigentes, funcionários, terceiros e fornecedores. E divulgar amplamente a realização desse trabalho.

Publicar seus códigos de ética, seus valores, organizar eventos de lançamento e divulga-los intensamente, inclusive como matéria paga, internaliza-los em todos os funcionários (e divulgar esse trabalho de treinamento). Pendurar nas paredes físicas da empresa, na intranet e nos sites.  Deixar claro para todos os funcionários, publicamente, que é obrigação pautarem sua conduta de acordo com tais valores, fazer a coisa certa todos os dias e o dia todo – e quais as sanções para quem não agir dessa forma.

Promover sessões anuais de treinamento para conscientizar os novos funcionários e reavivar permanentemente a memória de todos os membros de seu corpo funcional. Implantar treinamento frequente com casos por intranet, mandatório para todos os funcionários.

Publicar sua politica de Relações Governamentais, entregá-la impressa a autoridades, parlamentares, seus assessores, imprensa – até exagerar na divulgação.

Um CNPJ nada faz. É um papel inerte, como o contrato social, registrado na Junta Comercial. Quem faz ou deixa de fazer as coisas são as pessoas – acionistas das empresas, presidentes, diretores e funcionários. CPFs.

Desde a década de 1970 as únicas empresas do mundo que tinham uma legislação nacional coibindo a corrupção entre empresas e mandatários e funcionários de governos eram as americanas, que tinham o FCPA (Foreign Corrupt Practices Act).

Essa lei dos EUA começou a nascer quando o príncipe Bernhard, marido da Rainha Juliana, da Holanda, foi flagrado recebendo propina da Lockheed para convencer seu país a comprar aviões fabricados pela empresa. Grande escândalo, na década de 1970, mas não foi o único. Surgiu no contexto de uma importante investigação pela SEC (a CVM americana), que envolveu 400 empresas dos EUA por esse tipo de comportamento e levou o governo Jimmy Carter a sancionar o FCPA em 1977.

No começo dos anos 2000 a União Européia, com apoio da OCDE-Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico, apertou os controles sobre isso (daí as auto-denúncias da Siemens na Alemanha, sobre comportamentos de seus executivos em anos anteriores – e mais recentemente aqui no Brasil também); as empresas asiáticas também estão aprimorando seus controles; e, entre nós, a presidente Dilma Rousseff, em Agosto de 2013, sancionou a Lei 12.846, que responsabiliza também as pessoas jurídicas pela prática, por seus funcionários, de atos contra a administração pública nacional ou estrangeira.

Em nosso País a imbricação entre interesses privados e governo ocorre até antes do Brasil existir oficialmente. Lembremos que a expedição de Pedro Alvares Cabral foi um empreendimento particular com suporte financeiro do estado português (e também a de Cristóvão Colombo, com dinheiro do governo espanhol).

E os portugueses, logo que chegaram aqui, a primeira coisa que fizeram foi distribuir propina aos nativos, na forma de colares, espelhinhos, missangas e lantejoulas.

Então nenhuma dessas denúncias da Lava-a-Jato é surpresa para quem lê jornais. É uma tradição nacional, que “todo o mundo sempre soube que era assim”.

Por isso até agora, a rigor, só houve dois fatos surpreendentes para as pessoas informadas, em todo esse desfile de horrores que temos presenciado:

Primeiro a própria Lava-a-Jato, sua duração, sua ampliação, seu aprofundamento, a delação premiada, a atuação do juiz Sérgio Moro, do Ministério Público e da Polícia Federal, pessoas importantes encarceradas – tudo isso acontece pela primeira vez nos 515 anos da História do Brasil.

O segundo fato surpreendente foi o abandono da carreira pela advogada Beatriz Catta Preta, acuada por ameaças. Imagine... Uma advogada jovem, séria e discreta, bem-sucedida na profissão, com um trabalho importante, tornando-se uma profissional famosa, subitamente renuncia a todos os clientes, fecha e esvazia o escritório, demite todos os funcionários e abandona a carreira. Por sentir-se amedrontada por ameaças de políticos – ela e a família, com filhos provavelmente pequenos.

Para concluir, como já disse, na verdade quem comete todos os atos lícitos ou ilícitos nas empresas não são os CNPJs, nem os contratos sociais, nem os logotipos. São pessoas físicas. Mas as empresas, todas elas, são seriamente prejudicadas institucionalmente – de algumas, até a própria sobrevivência se vê ameçada. 

Por isso o que se precisa agora é uma Revolta dos Logotipos, um choque de integridade por iniciativa das empresas, dos CNPJs, que envolva profundamente os acionistas, executivos e funcionários – e com um forte compromisso institucional público.

Ou estarei eu sendo utópico, perdendo pé da realidade? No mínimo gostaria de me tornar incômodo e provocar. Ou então podemos todos continuar a assistir inermes à putrefação geral a que aludiu recentemente Clóvis Rossi em artigo na Folha de S.Paulo.

terça-feira, 9 de junho de 2015

A tentação da montanha chamada Internet

O Demônio levou Cristo ao alto de uma montanha e lhe prometeu todos os reinos do mundo, caso Jesus passasse a adorá-lo.

Diariamente, no alto da montanha chamada Internet, nos achamos também donos do mundo da comunicação, interagindo com uma multidão de pessoas, conseguindo encontrar rapidamente a informação que queremos, porque "o Google é meu pastor, nada me faltará".

E aí... Aí caímos da montanha, humilhados por um vírus qualquer que penetra em nossa máquina e sai enviando mensagens ofensivas em nosso nome para todos com quem interagimos, comprovando que o poder que sentíamos no alto da montanha não passava de ilusão.

Isso aconteceu comigo ontem. Por volta das 18h30 comecei a receber diversas mensagens via Facebook, reclamando de uma foto pornográfica aparentemente postada e enviada por mim. Logo ficou claro que se tratava de um virus que se havia infiltrado em minha máquina e passou a incomodar as pessoas.

Isso foi comprovado pelo Estadão on-line, que divulgou o vírus e um passo-a-passo para se livrar dele, em http://blogs.estadao.com.br/link/novo-virus-se-espalha-pelo-facebook-saiba-como-se-proteger/ . Mas meu filho - que entende infinitamente mais que eu dos meandros técnicos das redes sociais - ficou até quase meia-noite limpando minha página e reenviando minhas explicações e pedidos de perdão.

Como se vê, tenho razão em, mesmo parecendo reacionário, resistir à tentação da montanha do século 21 e, por exemplo, nunca fazer transações bancárias por internet.

sábado, 11 de abril de 2015

Vexame editorial da Revista Rolling Stone dos EUA se transforma em excelente aula magna de jornalismo e comunicação


No último dia 5 de Abril a edição online dos Estados Unidos de Rolling Stone se retratou totalmente pela reportagem “Um Estupro no Campus”, publicada cinco meses antes pela versão impressa.

Grotescos erros de reportagem e editoriais levaram a revista a cometer uma “barriga” inaceitável para os elevados padrões de uma publicação desse quilate, ao divulgar uma matéria simplesmente falsa, sobre um estupro que jamais acontecera.

Ao procurar remediar esse desastre, porém, Rolling Stone acabou por transformá-lo em uma verdadeira aula magna, proporcionada pela Escola de Jornalismo da Universidade de Columbia. Trata-se de um documento de grande interesse para quem pratica ou estuda a atividade jornalística, comunicação social, relações públicas, direito,  gestão de crise e gestão acadêmica – especialmente nesta época em que episódios de violência sexual e de outros tipos têm assolado as universidades brasileiras – enfim, para todos os cidadãos que gostariam de conhecer melhor como funciona e como deve funcionar a mídia profissional.

A história desse vexame e a análise de como e por que ocorreu estão minuciosamente retratados no texto fluente e jornalístico a seguir, publicado há duas semanas pela revista e que eu resolvi traduzir.


Rolling Stone e a Universidade da Virginia: O Relatório da
Escola de Jornalismo da Universidade de Columbia
Uma anatomia de um fracasso jornalístico

“Um estupro no Campus”
O Que Deu Errado?
NOTA DO EDITOR: Em Novembro último nós publicamos uma matéria intitulada “Um Estupro no Campus” [edição 1223 da Rolling Stone], focalizando o apavorante relato, por uma estudante da Universidade da Virginia (UVA), do estupro coletivo que ela alegava haver sofrido na casa de uma fraternidade no campus. Dias depois, começaram a surgir questionamentos de comentaristas sobre a veracidade da nossa narrativa. A seguir, quando The Washington Post revelou detalhes que sugeriam que a violência não poderia ter ocorrido da forma que nós a descrevemos, a verdade da matéria se tornou um tema de controvérsia nacional.
Ao perguntar a nós mesmos como é que poderíamos ter feito uma matéria errada, decidimos que a única coisa responsável e com credibilidade a fazer era pedir a alguém de fora da revista que investigasse quaisquer lapsos na reportagem, edição e checagem dos fatos da matéria. Procuramos Steve Coll, reitor da Escola de Jornalismo da Universidade de Columbia e repórter que conquistou o Prêmio Pulitzer, que aceitou nossa proposta. Oferecemos total cooperação e asseguramos também que ele e sua equipe poderiam ter o tempo de que precisassem e escrever o que quisessem. Eles não receberiam remuneração e nós prometemos publicar seu relatório na íntegra. (Uma versão condensada do relatório será publicada na próxima edição da revista, em 8 de Abril.)
Esse relatório foi uma leitura dolorosa, para mim pessoalmente e para todos nós na Rolling Stone. É também, ao seu jeito, um documento fascinante – uma peça jornalística, como Coll a descreve – sobre um fracasso do jornalismo. Com sua publicação, estamos renegando oficialmente “Um Estupro no Campus”. Estamos também nos comprometendo a cumprir uma série de recomendações sobre as práticas jornalísticas, que constam do relatório. 
Gostaríamos de pedir perdão a nossos leitores e a todos os que foram prejudicados por nossa matéria e pelas más consequências que se seguiram, inclusive aos membros da fraternidade Phi Kappa Psi, aos gestores e estudantes da UVA. A violência sexual é um sério problema nos campi universitários e é importante que as vítimas de estupro se sintam confortáveis em denunciá-la. Entristece-nos pensar que sua disposição de fazê-lo possa ser diminuída por nossas falhas.
Will Dana, Editor Geral

No último dia 8 de Julho, Sabrina Rubin Erdely, redatora da Rolling Stone, telefonou para Emily Renda, uma sobrevivente de estupro que trabalhava com questões de violência sexual na Universidade da Virginia (UVA). Erdely disse que estava à procura de algum caso emblemático de estupro universitário que demonstrasse “como é estar num campus atualmente... onde não somente o estupro tanto prevalece, mas também onde há essa difusa cultura de assédio sexual/cultura de estupro”, conforme registrado nas anotações de Erdely sobre a conversa. 1

Renda disse a Erdely que muitos ataques ocorriam durante festas onde “o objetivo é fazer todos caírem de bêbados”. E prosseguiu: “Pode haver um lado muito mais escuro disso” em algumas fraternidades. “Uma garota com quem eu trabalhei muito próxima alegou ter sofrido um estupro coletivo no outono, antes do recesso, e os homens que o perpetraram eram jovens que ainda não eram membros da fraternidade, e ela se lembra de que um deles disse a outro ‘Vamos lá, cara, você não quer ser um irmão?’”

Renda acrescentou “E obviamente, talvez a lembrança dela sobre o fato não seja perfeita.”
As anotações de Erdely registram sua resposta: “Eu digo a ela que é totalmente plausível”.

Renda colocou a redatora em contato com uma promissora jovem estudante da UVA que logo se tornaria conhecida por milhões de leitores da Rolling Stone como “Jackie”, uma versão mais curta de seu real primeiro nome. Erdely disse mais tarde que, na primeira vez em que se encontrou com Jackie, sentiu que a estudante “tinha um selo de credibilidade” porque elas haviam sido aproximadas por uma funcionária da universidade. 

Pouco tempo antes, Renda havia até comparecido perante uma comissão do Senado e tinha feito referência  às alegações de Jackie durante seu depoimento – outro aparente sinal da seriedade do caso. “Eu definitivamente teria interesse em divulgar minha história”, escreveu Jackie num email alguns dias depois.

Em 14 de Julho Erdely telefonou para ela. Jackie passou a descrever animadamente um crime monstruoso. Segundo as anotações de Erdely, ela disse  que em Setembro de 2012, no começo de seu ano de caloura, um estudante do terceiro ano que ela conhecia como seu colega salva-vidas no centro aquático da Universidade a havia convidado para “minha primeira festa de fraternidade.” Depois da meia-noite, seu acompanhante a levou para o andar de cima, em um quarto escuro. “Eu me lembro de olhar o relógio e eram 12:52 quando nós entramos no quarto,” disse ela a Erdely. O rapaz fechou a porta depois que os dois entraram. Jackie prosseguiu, segundo as anotações da redatora:

Meus olhos estavam se acostumando com o ambiente escuro. E eu disse o nome dele e me virei .... Ouvi vozes e comecei a gritar e alguém me deu um soco e me mandou calar a boca. Foi aí que eu tropecei e caí sobre a mesa de café e ela se espatifou sob mim e sob um outro rapaz, que tinha se atirado em cima de mim. Aí um deles agarrou meus ombros. ... Um deles tampou minha boca com a mão e eu mordi – e ele me deu um soco no rosto. ... Um deles disse “Agarre a porra da perna dela”. Quando ele disse isso eu percebi que eles iam me estuprar.

O restante do relato de Jackie era igualmente preciso e apavorante. O salva-vidas gerenciou sete rapazes que a estupraram, um a um. Erdely desligou o telefone “enojada e abalada”, disse ela. Ela se recordou de ter ficado “um pouco incrédula” com o vigor de alguns detalhes que Jackie forneceu, como o vidro quebrado da mesa destruída. No entanto Jackie fora “confiante, ela foi consistente.” (Jackie não quis responder a perguntas para este relatório. Seu advogado declarou que “é do maior interesse dela ficar em silêncio neste momento.” As afirmações entre aspas atribuídas a Jackie neste texto foram extraídas de anotações que Erdely informou ter datilogrado logo a seguir ou a partir de entrevistas gravadas.)2

Entre Julho e Outubro de 2014, disse Erdely, ela entrevistou Jackie outras sete vezes. A redatora trabalhava na Filadélfia e fazia reportagens para Rolling Stone desde 2008. Ela era especializada  em matérias sobre crimes reais, como “A Princesa Gangster de Beverly Hills”, a respeito de uma modelo coreana de vida luxuosa, que se dizia herdeira da Samsung, acusada de transportar sete mil libras de maconha. Havia escrito também sobre padres pedófilos e violência sexual entre os militares. Will Dana, o editor geral da revista, a considerava “uma repórter muito detalhista e impertinente, que é capaz de navegar matérias extremamente difíceis com diversos pontos de vista diferentes.”

Jackie demonstrou ser uma fonte desafiadora. Às vezes ela não retornava os telefonemas, mensagens e e-mails de Erdely. Em duas ocasiões a repórter temeu que Jackie fosse deixar de cooperar.  Além disso, Jackie se negou a dar a Erdely o nome do salva-vidas que havia organizado o ataque contra ela. Disse que ainda tinha medo dele. Isso levou a diálogos tensos entre Erdely e Jackie, mas a confrontação terminou quando os editores de Rolling Stone resolveram ir em frente sem saber o nome do salva-vidas nem obter confirmação de sua existência. Depois dessa concessão, Jackie cooperou plenamente até a publicação.

Erdely acreditava piamente que o relato de Jackie era confiável. Também criam nela seus editores e a encarregada de checar os fatos da matéria, que passou mais de quatro horas ao telefone com Jackie, revisando cada detalhe de sua experiência. “Ela não respondia apenas ‘Sim, sim, sim’, ela me corrigia”, disse a checadora. “Ela descrevia a cena para mim de forma muito vívida ... Eu não tinha dúvida.” (Rolling Stone pediu que não fosse mencionado o nome da responsável pela checagem porque ela não tinha autoridade para tomar decisões.)

Rolling Stone publicou “Um Estupro no Campus: Um Ataque Brutal e Luta por Justiça na UVA” em 19 de Novembro de 2014. A matéria causou grande sensação. “Fiquei chocada por ter uma reportagem que fosse viralizada de tal forma”, disse Erdely. “Meu telefone não parava de tocar.” A matéria online atraiu mais de 2,7 milhões de visitas, mais que qualquer outra que não fosse sobre uma celebridade, jamais publicada pela revista.

Uma semana depois da publicação, na véspera do Dia de Ação de Graças, Erdely falou por telefone com Jackie. “Ela me agradeceu muitas vezes”, disse Erdely. Jackie parecia estar “com a adrenalina alta, sentindo-se realmente muito bem.”

Erdely escolheu esse momento para revisitar o mistério do salva-vidas que havia atraído Jackie e supervisionado o ataque contra ela. A negativa de Jackie em lhe dar seu nome continuava a incomodar Erdely. Aparentemente o homem ainda era perigoso e estava em liberdade. “Isto não é para publicar”, recordou ter afirmado a redatora. “Você pode dizer só para mim?”

Jackie deu um nome a Erdely. Mas, ao datilografar, os dedos da repórter pararam. Jackie não tinha certeza da grafia do sobrenome do salva-vidas. Jackie especulou em voz alta sobre possíveis variações.

“Um alarme disparou na minha cabeça,” disse Erdely. Como é que a Jackie podia não saber o nome exato de alguém que ela afirmou que havia cometido um crime tão terrível contra ela – um homem que ela professava temer profundamente?

Nos dias seguintes, preocupada com a integridade de sua matéria, a repórter investigou o nome que Jackie havia dado, mas não conseguiu confirmar que ele trabalhasse na piscina, fosse um membro da fraternidade que Jackie havia identificado, ou tivesse qualquer outra conexão com Jackie ou com a descrição que ela fizera de seu ataque. Ela discutiu sua inquietação com os editores. Seu trabalho enfrentava novas pressões. O escritor Richard Bradley havia publicado dúvidas especulativas sobre a plausibilidade do relato de Jackie. 

Escritores da Slate haviam manifestado reservas sobre a reportagem de Erdely durante uma entrevista por podcast. Ela ficou sabendo também que T. Rees Shapiro, um repórter do Washington Post, estava preparando uma matéria baseada em entrevistas na Universidade de Virgínia que colocaria sérias dúvidas sobre a reportagem da Rolling Stone.

Tarde da noite no dia 4 de Dezembro, Jackie enviou uma mensagem de texto a Erdely e a repórter telefonou a ela. Já era mais de meia-noite. “Nós então tivemos uma conversa que me levou a ficar com sérias dúvidas,” disse Erdely.

Ela telefonou para seu principal editor da matéria, Sean Woods e afirmou que tinha perdido a confiança na precisão da descrição que havia publicado do ataque a Jackie. Woods, que era editor da Rolling Stone desde 2004, disse que “ficou aturdido”, prosseguindo: “Corrí para a redação” para ajudar a decidir o que fazer a seguir. No mesmo dia, a revista publicou uma nota do editor que efetivamente renegava a reportagem da Rolling Stone sobre as alegações feitas por Jackie, de estupro coletivo na Universidade da Virginia. “Foi o pior dia da minha vida profissional,” disse Woods.

***

O Fracasso e Suas Consequências

O repúdio, pela Rolling Stone, da principal narrativa em “Um Estupro no Campus”, é uma história de fracasso jornalístico que poderia ter sido evitado. O fracasso abrangeu reportagem, edição, supervisão editorial e checagem de fatos. A revista deixou de lado ou racionalizou como desnecessárias práticas de reportagem que, se tivessem sido efetuadas, provavelmente teriam levado os editores da revista a reconsiderar a publicação da narrativa de Jackie de forma tão destacada, ou mesmo a decidir não publicá-la. A matéria publicada disfarçava as falhas na reportagem da revista usando pseudônimos e deixando de divulgar de onde haviam partido importantes informações.

No fim de Março, após quatro meses de investigação, a polícia de Charlottesville, na Virginia, afirmou que havia “exaurido todas as pistas de investigação” e concluído que “Não há base substantiva para suportar o relato alegado na reportagem da Rolling Stone.”

A detonação da reportagem constitui mais um choque para a credibilidade do jornalismo, em meio a tantas mudanças radicais no mercado de mídia. Os pormenores da falha da Rolling Stone tornam clara a necessidade de se revitalizar um consenso, em novas e antigas redações, sobre os requisitos das melhores práticas jornalísticas, no nível de detalhamento dos manuais de operação.

Da mesma forma que em outros jornais e revistas impressos outrora robustos, o corpo editorial encolheu nos últimos anos, em decorrência da queda da receita publicitária e de sua migração para o meio online. O pessoal editorial em tempo integral, sem incluir os profissionais de arte ou fotografia, reduziu-se em 25% desde 2008. No entanto a Rolling Stone continua a investir em checadores profissionais e a financiar investigações que consomem muito tempo, como a de Erdely. Os registros da revista e as entrevistas com participantes mostram que o fracasso de “Um Estupro no Campus” não se deveu a falta de recursos. O problema foi a metodologia, agravado por um ambiente onde vários jornalistas com décadas de experiência coletiva deixaram de expor e debater problemas com sua reportagem ou de atentar para os questionamentos que receberam de uma colega encarregada da checagem.

Erdely e seus editores tinham a expectativa de que sua investigação faria soar um alarme sobre a violência sexual nos campi e desafiaria Virginia e outras universidades a melhorar seu desempenho. Em vez disso, a falha da revista pode ter espalhado a ideia de que muitas mulheres inventam alegações de estupro. (Cientistas sociais que analisaram registros de crimes informam que 2% a 8% das alegações de estupro são falsas.) Na Universidade da Virgínia, “Agora vai ficar mais difícil engajar algumas pessoas ... porque elas têm uma noção pré-concebida de que as mulheres mentem sobre violência sexual,” disse Alex Pinkleton, estudante da UVA e sobrevivente de estupro que foi uma das fontes de Erdely.

Houve outros danos colaterais. “Manchou completamente nossa reputação”, disse Stephen Scipione, presidente regional da fraternidade Phi Kappa Psi, que Jackie denunciou como o local de seu alegado ataque. “Destruiu completamente um semestre de nossas vidas, especificamente da minha. Colocou-nos na pior posição possível em nossa comunidade aqui, aos olhos de nossos pares e em classe.”

A universidade também sofreu. O relato da Rolling Stone ligou a cultura da fraternidade da UVA a um crime horrendo e descreveu a administração como negligente. Alguns gestores da UVA cujas ações no caso de Jackie foram descritas na reportagem foram retratados de forma depreciativa e, dizem eles, falsa. Allen W. Groves, o reitor de estudantes da Universidade e Nicole Eramo, uma reitora assistente de estudantes, escreveram individualmente para os autores deste relatório afirmando que a descrição de suas ações foi inexata.4

Em retrospecto, Dana, o editor geral, que trabalha na Rolling Stone desde 1996, declarou que o fracasso da matéria refletiu tanto uma “falha individual” como “uma falha de processo, uma falha institucional. ... Cada uma das pessoas, em cada nível, desta coisa teve oportunidades de puxar as rédeas com um pouco mais de força, de questionar as coisas um pouco mais profundamente, e isso não foi feito.”

No entanto os editores e Erdely concluíram que seu maior erro foi deixarem Jackie por demais acomodada porque ela se colocou como sobrevivente de um terrível ataque sexual. Cientistas sociais, psicólogos e especialistas em trauma que dão apoio a sobreviventes de estupros têm convencido jornalistas a respeitar a autonomia das vítimas, a evitar retraumatizá-las e a compreender que as sobreviventes de estupro são tão confiáveis em seus testemunhos quanto as vítimas de outros crimes. Essas percepções claramente influenciaram Erdely, Woods e Dana. “Ao fim e ao cabo, nós agimos com deferência excessiva em nosso trabalho de reportagem”, disse Woods. “Deveríamos ter sido muito mais duros e, ao não agir assim, talvez tenhamos feito um desserviço a ela”.

Erdely acrescentou: “Como essa matéria era sobre a Jackie, não consigo pensar em muitas coisas que poderíamos ter feito de outro jeito. ... Talvez a discussão não devesse ter sido tanto sobre a forma de acomodá-la, mas sim sobre se ela deveria mesmo aparecer na reportagem.” Em sua investigação, Erdely soube de outros casos oficialmente confirmados de estupro na universidade que poderiam ter ilustrado sua narrativa, apesar de nenhum deles ser tão chocante e dramático quanto o de Jackie.

No entanto a explicação de que a Rolling Stone falhou por ter sido excessivamente respeitosa com uma vítima não demonstra adequadamente o que foi feito errado. As anotações de Erdely e suas entrevistas com participantes evidenciam que a revista não foi atrás de importantes linhas de reportagem, mesmo quando Jackie não lhes pediu para não fazê-lo. Os editores fizeram julgamentos sobre atribuição, checagem de fatos e comprovação que largamente aumentaram seus riscos de erro, mas tinham pouco ou nada a ver com a proteção da posição de Jackie.

Seria lamentável se a falha da Rolling Stone viesse a tolher os jornalistas em investigações de alto risco sobre estupro, em que pessoas ou entidades poderosas podem querer evitar o escrutínio, mas onde os fatos podem ser pouco claros. Há uma obvia necessidade de compreensão e debate mais profundos, entre os jornalistas e outras pessoas, sobre a melhor maneira de fazer reportagens com sobreviventes de estupro, bem como sobre alegações de violência sexual não oficialmente comprovadas. Este relatório irá sugerir formas de se fazer isso. Tentará também esclarecer, no entanto, por que o fracasso da Rolling Stone com “Um Estupro no Campus” não precisava ter acontecido, mesmo levando em conta a sensibilidade da revista com a posição de Jackie. Tem a ver principalmente com o trabalho de reportagem e edição.

***

“De Que Outro Jeito Você Sugere Que Eu Descubra?”

Na época em que os editores da Rolling Stone encarregaram Erdely de fazer uma reportagem sobre violência sexual no campus, na primavera de 2014, casos notórios de estupro em Yale, Harvard, Columbia, Vanderbilt e Florida State já frequentavam as manchetes havia meses. O Departamento de Direitos Civís do Ministério da Educação pressionava as faculdades a reavaliar e aperfeiçoar suas normas. Em todo o país, gestores acadêmicos tiveram de se ajustar a uma supervisão federal mais estrita, bem como a uma nova geração de estudantes ativistas, inclusive mulheres que declaravam abertamente ter sido estupradas na escola e não haver obtido reparação pela justiça.

Havia numerosos relatos de casos de violência no campus que foram mal administrados pelas universidades. Na de Columbia uma estudante aflita arrastou um colchão pelo campus a fim de chamar atenção para seu relato de ataque e injustiça. Por vezes os fatos desses casos eram contestados, mas eles haviam gerado uma onda de ativismo no campus. “Minha idéia original,” afirmou Dana, era “investigar um desses casos e publicar uma matéria focalizando principalmente o processo do que acontece quando um ataque é denunciado e o tipo de questões que isso suscita.”

A história de Jackie parecia forte candidata para uma narrativa assim. Porém quando a ouviu, Erdely teve dificuldade para definir de que forma ela conseguiria confirmar de maneira independente os detalhes que Jackie fornecera, sem arriscar perder a cooperação de Jackie. No fim a repórter confiou fortemente no auxilio de Jackie para ter acesso a evidências e entrevistas confirmadoras. Erdely pediu que Jackie a apresentasse a amigos e familiares. Pediu mensagens de texto que confirmassem trechos do relato de Jackie, registros do emprego de Jackie no centro aquático e relatórios de saúde. Pediu até para examinar o vestido vermelho manchado de sangue que Jackie disse ter usado na noite em que relatou ter sido atacada.

Jackie deu alguma ajuda à repórter. Forneceu e-mails de um supervisor da piscina como prova de seu emprego lá. Apresentou Ederly a Rachel Soltis, uma caloura colega de quarto. Soltis confirmou que em Janeiro de 2013, quatro meses após o alegado ataque, Jackie dissera a ela que havia sofrido um estupro coletivo.

Mas também era difícil assegurar a colaboração de Jackie. Outras entrevistas que Jackie prometera conseguir nunca aconteceram. “Eu me sentia frustrada, mas não achava que ela não quisesse fornecer” corroboração, disse Erdely. Um belo dia Jackie contou a Erdely que sua mãe havia jogado fora o vestido vermelho. Afirmou também que sua mãe concordaria em falar com Erdely, mas a repórter declarou que, quando telefonou e deixou recados várias vezes, a mãe não retornou as ligações.

Erdely poderia ter aprofundado a reportagem de diversas formas, por conta própria, para confirmar o que Jackie lhe havia relatado. Jackie disse à jornalista que um de seus estupradores fizera parte de um pequeno grupo de debate em sua aula de antropologia. Erdely poderia ter procurado comprovar independentemente a existência de tal grupo e identificar o jovem que Jackie havia descrito. Poderia ter examinado as redes sociais da Phi Kappa Psi para encontrar membros que ela pudesse entrevistar e encontrar evidências de uma festa na noite que Jackie descrevera. Erdely poderia ter procurado estudantes que trabalhassem no centro aquático e buscado pistas sobre o salva-vidas descrito por Jackie. 

Qualquer uma dessas e outras linhas de reportagem similares poderiam ter levado a descobertas que teriam motivado a Rolling Stone a mudar de plano. Mas três falhas de reportagem se destacam. Elas envolvem prática jornalística básica, até rotineira – não um esforço investigativo especial. E se essas linhas de reportagem tivessem sido seguidas, a Rolling Stone muito provavelmente teria evitado problemas.

Três amigos e “merda no ventilador”

Durante sua primeira entrevista, Jackie disse a Erdely que, após fugir da fraternidade onde sete homens, instigados por seu acompanhante, a haviam estuprado, pediu ajuda a três amigos.

Ela descreveu os dois rapazes e uma moça – agora ex-amigos, disse Jackie a Erdely – chamados Ryan, Alex e Kathryn. Só deu os primeiros nomes deles, segundo as anotações de Erdely. Afirmou que eles se encontraram com ela na madrugada de 29 de Setembro de 2012, no campus. Jackie disse que a princípio estava “chorando e chorando” e que só conseguia comunicar que “algo de ruim” tinha acontecido. Declarou que seus amigos entenderam que ela havia sofrido um ataque sexual. (Em entrevistas para este relatório, Ryan e Alex afirmaram que Jackie lhes dissera que tinha sido forçada a fazer sexo oral em vários homens.) Pelo relato de Jackie a Erdely, Ryan lhe recomendou que fosse ao centro feminino da universidade ou a um hospital em busca de tratamento. Mas Alex e Kathryn ficaram preocupados porque, se ela denunciasse um estupro, a vida social deles seria afetada. “Ela vai ser a garota que gritou ‘estupro’ e nós nunca mais vamos poder entrar outra vez numa festa de fraternidade”, dissera Kathryn, segundo se recordava Jackie.

Jackie falou de maneira simpática sobre Ryan, mas a cena que descreveu para a redatora da Rolling Stone era desfavorável aos três ex-amigos. A prática jornalística – e o senso básico de equidade – exigem que, quando um repórter pretende publicar informações depreciativas sobre alguém, busque ouvir a versão dessa pessoa.

Erdely disse que, quando visitou a UVA, pediu ajuda à estudante Alex Pinkleton, sobrevivente de um ataque, para identificar ou entrar em contato com os três. (Pinkleton não era o “Alex” que Jackie mencionou em seu relato.) Mas Pinkleton respondeu que precisaria pedir permissão a Jackie para auxiliar a repórter. Erdely não deu sequência a isso com ela. Erdely poderia ter identificado o trio de forma independente. Listas de amigos no Facebook poderiam ter mostrado os nomes. Ou então Erdely poderia ter pedido ajuda a outros estudantes, além de Pinkerton.

Em vez disso, Erdely se apoiou em Jackie. Em 29 de Julho ela pediu auxílio a Jackie para falar com Ryan “para corroborar aquela noite, uma segunda voz?” Segundo as anotações da jornalista, Jackie respondeu que, apesar de “Ryan às vezes ser difícil, não entendo por que ele não falaria”. Mas Jackie não deu resposta às mensagens de follow-up que Erdely deixou.

Em 11 de Setembro Erdely viajou para Charlottesville e se encontrou com Jackie pela primeira vez, num restaurante próximo ao campus da UVA. Com seu gravador digital ligado, a repórter novamente pediu para conversar com Ryan. “Eu falei com Ryan,” revelou Jackie. Ela disse que o havia encontrado por acaso e perguntado se ele teria interesse em falar com a Rolling Stone. Em seguida Jackie citou a reação incrédula de Ryan: “Não! ... Eu estou numa fraternidade aqui, Jackie, não quero derrubar o governo grego e está parecendo que é isso que você quer que aconteça ... Eu não quero me envolver nessa merda que você está querendo jogar no ventilador.”

“Evidentemente Ryan não vai topar”, disse Erdely a Jackie um pouco depois.
No entanto Jackie nunca pediu – nem naquele momento nem mais tarde – que a Rolling Stone deixasse de entrar em contato com Ryan, Kathryn ou Alex de forma independente. 

“Eu não diria que era obrigação” da Jackie, disse Erdely posteriormente. Em vez disso ela se preocupou: será que se “eu passar por cima da Jackie vou afastá-la do processo?” Jackie às vezes era difícil de agarrar, o que levava Erdely a se afligir com a possibilidade de que ela continuasse hesitante na sua cooperação. Mas Jackie nunca disse que cairia fora se Erdely procurasse Ryan ou buscasse outras linhas de reportagem por sua própria conta.

“Eles sempre estiveram na minha lista de pessoas” que deviam ser procuradas, disse Erdely sobre os três. No entanto, afirmou, ficou ocupada em conseguir uma reação da UVA ao caso de Jackie. Ela não se recorda de ter tido uma conversa específica sobre esse assunto com seu editor Woods. “Nós só meio que concordamos. ... Nós temos de deixar isso de lado.” 

Woods, porém, se lembrou de mais de uma conversa com Erdely sobre isso. Quando Erdely disse que havia esgotado todas as possibilidades de encontrar os amigos, ele disse que concordou em deixar para lá.

Se Erdely tivesse encontrado Ryan Duffin – seu verdadeiro nome – ele teria afirmado que nunca dissera a Jackie que não se envolveria com a “merda no ventilador” da Rolling Stone, declarou Duffin numa entrevista para este relatório. A conversa toda com Ryan, que Jackie descreveu para Erdely, “nunca aconteceu”, disse ele. Jackie nunca havia tentado contatá-lo para cooperar com a Rolling Stone. Ele não tinha encontrado Jackie ou se comunicado com ela desde o último mês de Abril, disse.

Se Erdely ouvido o relato de Ryan, de que Jackie havia forjado sua conversa, teria mudado de rumo imediatamente, para pesquisar outros casos de estupro da UVA que fossem isentos desse tipo de contradições, disse ela posteriormente.

Se Erdely tivesse ligado para Kathryn Hendley e Alex Stock – seus verdadeiros nomes – para checar suas versões para o relato de Jackie sobre os dias 28 e 29 de Setembro, eles teriam negado ter pronunciado qualquer das palavras que Jackie lhes atribuiu (da mesma forma que Ryan também teria negado). Eles teriam relatado a Erdely uma história de comunicações com Jackie que teria deixado a repórter com muitos novos questionamentos. 

Por exemplo, os amigos afirmaram que Jackie lhes dissera que seu acompanhante em 28 de Setembro era, não um salva-vidas, mas um estudante de sua aula de química chamado Haven Monahan. (A polícia de Charlottesville informou em Março que não conseguiu localizar um estudante da UVA ou qualquer outra pessoa chamada Haven Monahan.) Todos os três amigos teriam conversado com Erdely, disseram, se tivessem sido contatados.

O episódio reafirma um truísmo do trabalho de reportagem: Checar informação depreciativa com as pessoas que são alvos de tais comentários é uma questão de equidade, mas também pode produzir fatos novos e surpreendentes.

“Você pode comentar?”

Enquanto fazia a reportagem, Erdely disse a Jackie e outros que desejava publicar o nome da fraternidade onde Jackie disse ter sido estuprada. Erdely sentiu que Jackie “estava segura” a respeito do nome da fraternidade: Phi Kappa Psi.

Em Outubro último, quando concluía sua matéria, Erdely enviou um email a Stephen Scipione, presidente regional da Phi Kappa Psi. “Fiquei sabendo de alegações de estupro coletivo que foram feitas sobre a unidade da Phi Kappa Psi na UVA,” escreveu Erdely. “Você pode comentar essas alegações?”

Era uma versão decididamente truncada dos fatos que Erdely acreditava possuir. Ela não revelou a informação de Jackie sobre a data do ataque. Não revelou que Jackie dissera que a Phi Kappa Psi havia promovido um “evento para acompanhantes” naquela noite, que candidatos potenciais estavam presentes, nem que o rapaz que alegadamente orquestrou o ataque era um membro da Phi Kappa Psi, que era também salva-vidas no centro aquático da universidade. Jackie não pedira que ela deixasse de fornecer tais detalhes à fraternidade.

A administração da universidade tinha recentemente informado à Phi Kappa Psi que havia recebido um relato de ataque sexual na fraternidade, o qual, segundo informado, tivera lugar em Setembro de 2012. Erdely sabia que a fraternidade havia recebido um informe da UVA, mas não conhecia seu conteúdo específico. Na verdade, nesse informe, declarou Scipione em recente entrevista, a UVA indicou uma data em meados de Setembro como a noite do ataque – não 28 de Setembro. E o informe não continha os detalhes que Jackie tinha dado a Erdely. A universidade disse apenas que, segundo o relato que recebera, uma caloura tinha estado bebendo numa festa, subira ao andar superior e fôra forçada a fazer sexo oral com vários homens.

Em 15 de Outubro Scipione respondeu ao pedido de comentário de Erdely. Escreveu ele por email “que um indivíduo que permanece não-identificado havia supostamente reportado a alguém que supostamente reportou à Universidade que, durante uma festa, houvera um ataque sexual”. E acrescentou: “Apesar dessa alegação ser em quarta mão e de não haver detalhes e de não constar o nome do acusador, a liderança e a fraternidade como um todo encararam isto muito seriamente .”

A seguir Erdely telefonou para Shawn Collinsworth, então diretor executivo nacional da Phi Kappa Psi. Collinsworth deu espontaneamente um resumo do que a UVA havia transmitido aos lideres da fraternidade: que houvera alegações de “estupro coletivo durante festas da Phi Psi” e que um ataque “ocorreu em Setembro de 2012”.

Segundo suas anotações, Erdely perguntou “Pode comentar?”

Se Erdely tivesse fornecido a Scipione e Collinsworth todos os detalhes que possuía, em vez de simplesmente pedir “comentário”, a fraternidade poderia ter investigado os fatos que ela apresentasse. Depois que a Rolling Stone foi publicada, a Phi Kappa Psi disse em entrevista que um exame conduzido nos arquivos das redes sociais da fraternidade e nos registros bancários demonstrou que a fraternidade não havia promovido evento para acompanhantes ou outra festa na noite em que Jackie disse ter sido estuprada. Uma comparação entre a lista de membros da fraternidade e os registros de emprego do centro aquático demonstrou que nenhum de seus integrantes trabalhava como salva-vidas, acrescentou Scipione.

Erdely afirmou que Scipione tinha parecido “realmente vago”, então ela se concentrou em conseguir uma resposta de Collinsworth. “Eu achei que tinha dado a ele plena oportunidade para responder,” disse ela. “Eu acreditava totalmente que ele já sabia quais eram as alegações porque eles tinham sido informados pela UVA.” Na verdade, porém, a versão do ataque fornecida à Phi Kappa Psi era bem diferente da que Jackie havia oferecido a Erdely – e menos detalhada.

Scipione afirmou que a Rolling Stone não forneceu a informação detalhada que a fraternidade requeria, para reagir de forma apropriada às alegações. “Era completa bobagem,” disse ele. “Eles não quiseram me dizer sobre o que iriam escrever. Não quiseram me dar quaisquer datas ou detalhes”. Collinsworth declarou que também não recebeu os pormenores do ataque que afinal saiu na Rolling Stone

Há casos em que os repórteres podem resolver ocultar alguns detalhes do que pretendem escrever, quando procuram confirmação, por temer que o objeto da matéria possa “sair na frente”, publicando às pressas uma versão preventiva redigida de maneira favorável. Há personagens jornalísticos sofisticados na politica e no mundo empresarial que por vezes queimam repórteres dessa forma. Mesmo assim, é arriscado para um jornalista ocultar informação depreciativa de qualquer alvo de reportagem antes da publicação. Aqui aparentemente não havia por que temer que a Phi Kappa Psi “saísse na frente.”

Ainda que a Rolling Stone não confiasse nas motivações da Phi Kappa Psi, caso tivesse dado à fraternidade uma chance de examinar em detalhe as alegações, as discrepâncias factuais que a fraternidade provavelmente teria indicado poderiam ter levado Erdely e seus editores a tentar confirmar o relato de Jackie de forma mais aprofundada.

O mistério de "Drew"

Em suas entrevistas, Jackie usou com liberalidade um primeiro nome – mas não o sobrenome – do salva-vidas que ela disse ter orquestrado seu estupro. Em 16 de Setembro, pela primeira vez, Erdely mencionou a possibilidade de localizar esse homem.
“Tem alguma ideia do que ele anda fazendo agora?” perguntou Erdely, segundo suas anotações.

“Não, só sei que ele se formou. Eu o bloqueei no Facebook,” respondeu Jackie. “Uma das minhas amigas o procurou – ela queria vê-lo para que pudesse reconhecê-lo e matá-lo,” afirmou Jackie, rindo. “Eu não podia nem olhar para sua página no Facebook.”

“Como você se sentiria se eu o procurasse para pedir um comentário?” perguntou Erdely, de acordo com suas anotações.

“Não acho que ficaria confortável com isso.”

Esse diálogo iniciou um embate de seis semanas entre Erdely e Jackie. Durante algum tempo pareceu a Erdely que o impasse poderia levar Jackie a deixar totalmente de cooperar.
Em 20 de Outubro Erdely voltou a pedir o sobrenome do rapaz. “Não vou usar o nome dele na matéria, mas preciso fazer minha investigação correta, de qualquer forma,” disse Erdely a Jackie, segundo suas anotações. “Eu imagino que ele não vá dizer nada, mas é algo que eu preciso fazer.”

“Eu não quero dar o sobrenome dele,” replicou Jackie. “Nem quero envolvê-lo nisto. ... Ele me aterroriza completamente. Nunca tive tanto medo de uma pessoa na minha vida inteira e eu nunca quis dizer o sobrenome dele a ninguém. ... Acho que uma parte de mim pensava que ele nunca sequer ficaria sabendo da reportagem.”

“É claro que ele vai saber da matéria,” disse Erdely. Vai lê-la. Provavelmente ele já está sabendo da reportagem.”

Jackie pareceu chocada, pelas anotações de Erdely. “Não quero ser eu a te dar o nome,” disse Jackie.

“E como é que você sugere que eu descubra?”

“Acho que você poderia pedir à Phi Psi que lhe entregue a lista deles,” respondeu Jackie.

Depois dessa conversa Jackie parou de retornar os telefonemas e mensagens de Erdely. “Houve um ponto em que ela desapareceu por umas duas semanas,” afirmou Erdely “e nós ficamos muito preocupados” sobre o bem-estar de Jackie. “O comportamento dela parecia semelhante ao de uma vítima de trauma.”

No entanto Jackie não fez qualquer exigência de que a Rolling Stone não tentasse identificar de forma independente o salva-vidas. Até sugeriu uma maneira de fazer isso – checando o rol de membros da fraternidade. Nem condicionou sua participação na matéria à concordância de Erdely em não tentar identificar o salva-vidas.

Erdely procurou identificar o rapaz por conta própria. Indagou de amigas de Jackie se podiam ajudar. Elas ficaram na retranca. Procurou online para ver se as pistas que tinha lhe permitiriam chegar a um nome completo. Isso não deu qualquer resultado definitivo. “Ela foi muito agressiva sobre entrar em contato” com o salva-vidas, disse Pinkleton, uma das estudantes a quem Erdely pediu auxílio.

Olhando em retrospecto, para ter êxito Erdely provavelmente precisaria ter convencido estudantes a acessar os registros de funcionários do centro aquático para encontrar possíveis nomes idênticos. Isso poderia ter exigido tempo e sorte.

No final de Outubro, com o fechamento da matéria previsto para daí a apenas duas semanas, Jackie ainda se recusava a responder aos textos e mensagens de voz de Erdely. Finalmente, em 3 de Novembro, depois de consultar seus editores, Erdely deixou uma mensagem para Jackie propondo uma “solução” que permitisse que a Rolling Stone evitasse de vez entrar em contato com o salva-vidas. A revista usaria um pseudônimo: acabaram escolhendo “Drew”.

Depois que Erdely capitulou nessa mensagem de voz, Jackie ligou de volta rapidamente. Segundo Erdely, ela agora falou livremente sobre o salva-vidas, ainda sem usar seu sobrenome. Desse ponto em diante, até a publicação da matéria, Jackie cooperou.

Em Dezembro Jackie declarou ao The Washington Post numa entrevista que, depois de várias entrevistas com Erdely, ela pedira para ser retirada da matéria, mas Erdely tinha recusado. Jackie disse ao Post que mais tarde concordou em participar, com a condição de poder checar os fatos de trechos de sua história. Erdely afirmou numa entrevista para este relatório que ficou completamente surpresa com as declarações de Jackie ao Post e que Jackie nunca lhe disse que queria ser retirada da reportagem. Não há prova de tal diálogo entre Jackie e Erdely nos materiais que Erdely forneceu à Rolling Stone.

Havia realmente um salva-vidas do centro aquático que trabalhava na piscina ao mesmo tempo que Jackie e tinha o primeiro nome que ela usara livremente com Erdely. Mas ele não fazia parte da Phi Kappa Psi. A polícia o entrevistou e examinou seus registros pessoais. Não encontrou evidências que o ligassem ao ataque a Jackie.

Se a Rolling Stone o tivesse localizado e ouvido sua reação às alegações de Jackie, inclusive o fato comprovável de que ele não pertencia à Phi Kappa Psi, isso poderia ter feito Erdely reconsiderar seu foco nesse caso. Seja como for, a Rolling Stone parou de procurá-lo.

***

“O Que Eles Estão Escondendo?”

A ambição de "Um Estupro no Campus" era ir além de narrar um ataque a uma mulher. A meta era fazer uma investigação sobre a forma como as faculdades trabalham com a violência sexual. A pauta era oportuna. Os sistemas que as faculdades adotaram para enfrentar condutas sexuais impróprias passaram a ser intensamente investigadas. Esses sistemas são obras em andamento, emaranhados com regras federais mutantes e por vezes contraditórias, que buscam ao mesmo tempo preservar a segurança dos estudantes, responsabilizar perpetradores e proteger a privacidade de todos os estudantes.

As questões jurídicas remontam a 1977, quando cinco moças estudantes processaram a Universidade de Yale, argumentando que haviam sofrido assédio sexual. As estudantes invocaram o Título IX das Emendas de Educação de 1972, uma lei federal que proíbe discriminação de gênero na educação. Perderam a ação, mas seu argumento – de que o assédio e a violência sexuais no campus ameaçavam o acesso das mulheres à educação – acabou por prevalecer. Em meados da década de 1980 centenas de faculdades já haviam adotado procedimentos para enfrentar a má conduta sexual, da perseguição ao estupro. Se as universidades deixassem de agir dessa forma de maneira adequada, poderiam perder financiamentos federais.

No final de 2009 o Centro pela Integridade Pública começou a publicar uma série de artigos que ajudou a inspirar orientações federais ainda mais restritivas. Os artigos puseram a nu problemas ocorridos com a primeira geração das reações do campus: investigações mal-feitas por pessoal não-treinado; processos de adjudicação sob o manto do segredo; e sanções tão débeis que por vezes permitiam que estupradores, inclusive reincidentes, continuassem no campus enquanto suas vítimas fugiam da escola.

O governo Obama abraçou a causa. Pressionou as faculdades a adotar sistemas mais rigorosos e baixou o patamar de culpabilidade para se condenar um estudante nos tribunais escolares. A nova pressão causou confusão, no entanto e, em alguns casos, acusações de injustiça. Em Outubro passado um grupo de professores da Faculdade de Direito de Harvard escreveu que a nova política da universidade para má conduta sexual estava “atirando fora o equilíbrio e a equidade, em sua pressa para apaziguar certas autoridades do governo federal.”

A escolha da Universidade da Virginia por Erdely como estudo de caso foi oportuna. Na semana em que ela visitou o campus, uma caloura de 18 anos da UVA desapareceu e mais tarde se descobriu que havia sido sequestrada e assassinada. Na época a universidade havia sofrido diversos casos altamente notórios de ataque sexual. O Departamento de Direitos Civís do Ministério da Educação havia submetido a escola, juntamente com  outras 54, a ampla análise de sua conformidade com a legislação.

“O objetivo maior da matéria,” escreveu Erdely em resposta a questionamentos do The Washington Post em Dezembro último, não era Jackie e sim “a cultura que acolheu ela própria e tantas outras mulheres da UVA que eu entrevistei, que apresentaram alegações, recebidas apenas com indiferença.”

Erdely considerou sua reportagem sobre a UVA como um exame, afirmou ela em uma entrevista para este relatório, sobre “a forma como as faculdades trabalham com este tipo de coisa.” Jackie “era apenas o exemplo mais dramático.”

“Um efeito congelante”

Após ouvir a chocante história de Jackie, Erdely passou a se concentrar na obrigação das universidades regidas por legislação federal a emitir advertências em tempo adequado quando haja uma ameaça “séria ou contínua” à segurança dos estudantes. Erdely entendeu que, oito meses depois do alegado ataque, Jackie havia relatado à UVA que tinha sofrido estupro coletivo na casa da Phi Kappa Psi no campus, durante um aparente trote. Em sua reportagem, a Rolling Stone afirmou que a universidade havia sido descuidada ao não advertir seus estudantes sobre essa fraternidade que parecia ser predatória.

Segundo a polícia de Charlottesville, Jackie efetivamente se reuniu com a reitora-assistente de estudantes Nicole Eramo em 20 de Maio de 2013. Informou a polícia que nesse encontro Jackie descreveu seu ataque de maneira diferente da que transmitiu mais tarde a Erdely, deixando de dar detalhes. De acordo com membros da comunidade da UVA que conhecem o caso mas pediram para não ser identificados para poderem falar sobre questões confidenciais da universidade, Jackie recontou a Eramo a mesma história que havia compartilhado com os amigos na noite de 28 de Setembro: Ela foi forçada a fazer sexo oral com diversos homens numa festa de fraternidade. Segundo as fontes Jackie não nominou a fraternidade onde o ataque ocorreu nem deu nomes ou detalhes sobre seus atacantes. Não houve menção a trote. (Citando a privacidade dos estudantes e investigações em andamento, a administração da UVA, por meio de seu departamento de comunicação, não quis responder a perguntas sobre o caso.)

Ao longo dos anos o Ministério da Educação tem emitido orientações que sublinham a confidencialidade e autonomia das vítimas. Isso significa que as sobreviventes decidem se querem reportar e que assistência gostariam de receber. “Se ela não identificou pelo nome qualquer pessoa ou organização grega, a universidade ficou muito, muito limitada no que pode fazer,” afirmou S.Daniel Carter, um militante da segurança no campus e diretor da organização sem fins lucrativos 32 National Campus Safety Initiative.

Pela reportagem da Rolling Stone, em sua reunião de Maio de 2013 Eramo apresentou a Jackie suas opções: reportar o ataque à policia ou ao Conselho de Má Conduta Sexual da universidade. A reitora ofereceu também aconselhamento e outros serviços. Além disso entrou em contato com Jackie nas semanas seguintes para saber se ela queria efetuar alguma ação. E apresentou Jackie ao One Less, um grupo de estudantes composto de vítimas de ataques sexuais e seus apoiadores.

A universidade não emitiu advertência a essa altura porque Jackie não formalizou queixa e seu relato não continha os nomes de atacantes nem uma fraternidade específica, segundo fontes da UVA. Tampouco fazia menção a trote.

Entre aquela data e Abril de 2014 a universidade não recebeu informação adicional sobre o caso de Jackie, segundo a polícia e fontes da UVA.

Em 21 de Abril de 2014 Jackie voltou a se reunir com Eramo, de acordo com a polícia. Disse à reitora que agora estava sendo pressionada por seu visível ativismo no campus junto a grupos de prevenção de ataques como o Take Back the Night, segundo as fontes da UVA. Três semanas antes, disse ela, havia sido atingida no rosto por uma garrafa atirada por manifestantes em frente a um bar de Charlottesville. Acrescentou uma nova informação a seu relato anterior do estupro coletivo a que havia sido submetida. Nominou a Phi Kappa Psi como a fraternidade onde o ataque tinha ocorrido, disse mais tarde a polícia. Além disso mencionou a Eramo duas outras estudantes que, segundo ela, haviam sido estupradas naquela fraternidade. Mas não revelou os nomes dessas moças nem quaisquer detalhes sobre seus ataques.

Quando há informações com credibilidade sobre múltiplos atos de violência sexual pelo mesmo perpetrador, que possam colocar estudantes em risco, as orientações do Ministério da Educação indicam que a universidade deve agir, ainda que nenhuma queixa tenha sido formalizada. A escola deve também examinar a hipótese de emitir uma advertência de segurança pública. Uma vez mais, a Universidade da Virgínia não fez a advertência. Se a administração deveria ter feito isso, à luz da informação que possuía, é uma questão que está sendo examinada pelo Conselho de Visitantes que governa a Universidade da Virginia, com a assessoria de investigação e análise do escritório de advocacia O’Melveny & Myers. (Em 30 de Maio a UVA atualizou sua política de ataque sexual, incluindo procedimentos mais claramente definidos para avaliar ameaças e emitir advertências em tempo hábil.)

No dia seguinte a seu encontro com a reitora, Jackie esteve com as polícias de Charlottesville e da UVA num encontro promovido por Eramo. Jackie relatou tanto o incidente da garrafa atirada quando seu ataque na casa da Phi Kappa Psi. Mais tarde a polícia declarou que ela se negou a fornecer detalhes sobre o estupro coletivo porque “temia retaliação da fraternidade se fosse adiante com uma investigação criminal.” A polícia afirmou também que havia detectado significativas discrepâncias na descrição feita por Jackie do dia em que disse que fora atingida pela garrafa.

Naquele verão Erdely começou a entrevistar diversas sobreviventes de ataques na UVA. Dirigentes da universidade ainda esperavam que Jackie e as duas outras vítimas por ela mencionadas formalizassem acusações, informaram fontes da UVA. Erdely ficou sabendo do seguinte: Em 14 de Julho Emily Renda, que se havia formado em Maio e assumido um emprego no departamento de assuntos estudantís da universidade, disse à repórter que talvez não fosse prudente a Rolling Stone mencionar nominalmente a Phi Kappa Psi em sua matéria porque “há duas outras mulheres que ainda não se declararam completamente e nós estamos tentando convencê-las a buscar medidas punitivas contra a fraternidade.” Renda enviou mais tarde um email para este relatório indicando que havia tentado dissuadir a jornalista “devido a preocupações com o devido processo e com a maneira pela qual acusações públicas a uma fraternidade tanto poderiam evitar futuras ações da justiça como infringir seus direitos.” A advertência de Renda a Erdely – um aviso de uma funcionária da UVA de que a Phi Kappa Psi estava sob investigação da universidade – reforçou a impressão de que a UVA considerava confiável a narrativa de Jackie.

Como ficou claro mais tarde, porém, todas as informações que a repórter, Renda e a UVA possuíam sobre as duas outras vítimas reportadas, além de Jackie, provinham exclusivamente de Jackie. Uma das moças postou um relatório anônimo no sistema online da UVA – Jackie disse a Erdely que estava presente quando a estudante pressionou o botão “enviar” – mas desde então nada mais se soube das duas mulheres.

“Acho que pode parecer que estamos tentando esconder alguma coisa”

No começo de Setembro Erdely pediu para entrevistar Eramo. A solicitação criou um dilema para a UVA. As universidades precisam obedecer a um conjunto de leis federais que limitam o que elas podem tornar público sobre seus estudantes. A mais importante delas é a Lei de Direitos e Privacidade Educacional das Famílias, ou FERPA, que protege a privacidade dos estudantes e dificulta para funcionários de universidades a liberação de registros e a resposta a perguntas sobre qualquer matriculado.

Eramo se dispunha a falar, desde que não fosse indagada sobre casos específicos, mas apenas sobre situações hipotéticas, como Erdely havia habilmente sugerido, para contornar limitações referentes à privacidade dos estudantes.

“Como [Erdely] me foi recomendada pelos estudantes por ela entrevistados, acho que pode parecer que estamos tentando esconder alguma coisa se eu não falar com ela,” disse Eramo num email ao pessoal de comunicação da UVA, recentemente liberado em virtude de um pedido baseado na Lei de Liberdade de Informação.

O departamento de comunicação autorizou a entrevista, mas a vice-presidente para a Vida Estudantil Patricia Lampkin vetou a idéia. “Isto não tem a ver com Nicole,” escreveu ela num email, “mas com a questão de como os repórteres retorcem a questão.” Solicitada a esclarecer essa afirmação para esta análise, Lampkin afirmou que, tendo em vista as restrições da FERPA, nada que Eramo pudesse dizer em uma entrevista daria a Erdely “uma visão completa e equilibrada da situação.”

A desconfiança era mútua. “Eu tinha ido ao campus acreditando que eles iriam ajudar bastante,” comentou Erdely. Agora ela sentia que estava sendo bloqueada. Entre outras coisas, disse que Jackie e Alex Pinkleton lhe informaram que, depois que a Rolling Stone começou a fazer perguntas no campus, administradores da UVA contataram a Phi Kappa Psi pela primeira vez a respeito das alegações de ataque sexual na casa da fraternidade.

Para Erdely, a UVA parecia estar procurando controlar os danos. “Então eu acho que, em vez de ficar cética quanto à Jackie,”, disse, “fiquei cética com relação à UVA. ... O que é que eles estão escondendo e por que estão agindo dessa forma?”

É verdade que a UVA não contatou a Phi Kappa Psi até que Erdely aparecesse no campus. Fontes da Universidade deram uma explicação. Disseram que os administradores haviam pensado em suspender a licença da fraternidade, mas isso significaria que a universidade não mais poderia fiscalizar a Phi Kappa Psi. Tinham também evitado contatar a fraternidade no verão, na esperança de que Jackie e as outras supostas vítimas entrassem com processo judicial contra ela. Isso não havia acontecido, então eles resolveram agir, antes mesmo que Erdely começasse a fazer perguntas, disseram as fontes. (Na época em que escrevíamos este relatório, a universidade não havia dado a público qualquer prova documental que suportasse o processo de tomada de decisão descrito por estas fontes.) Seja como for, havia motivos para a Rolling Stone se tornar cética. A história do trabalho da UVA com a má conduta sexual é irregular, como Erdely ilustrou em outros casos que ela reportou.

Em 2 de Outubro Erdely entrevistou Teresa Sullivan, presidente da UVA. A repórter fez questionamentos penetrantes que revelaram o abismo entre o número de casos de ataque que a universidade divulgou publicamente e os casos que foram levados ao conhecimento da universidade internamente. Erdely descreveu as leves sanções impostas aos estudantes culpados de má conduta sexual. Perguntou sobre alegações de estupros coletivos na Phi Kappa Psi. Sullivan disse que uma fraternidade estava sendo investigada, mas não quis fazer outros comentários sobre casos específicos.

Após o recente comunicado da polícia de Charlottesville, de que eles não haviam encontrado base para a descrição do ataque a Jackie feita pela Rolling Stone, Sullivan fez uma declaração. “A investigação confirma o que a lei federal de privacidade proibia a universidade de divulgar no outono passado: Que a universidade proporcionou apoio e atenção a uma estudante que necessitava, inclusive assistência na denúncia aos agentes da lei de conduta potencialmente criminosa”, declarou.

Erdely concluiu que a UVA não havia feito o suficiente. “Tendo presumivelmente julgado que não havia ameaça,” escreveu ela na matéria publicada, a UVA “não agiu para advertir o campus de que uma alegação de estupro coletivo fora feita contra uma fraternidade ativa.” Em geral, acrescentou, “os estupros ficam ocultos” na UVA em parte devido a “uma administração que, segundo críticos, está menos preocupada em proteger os estudantes do que em proteger de escândalos sua própria reputação.”

Durante os seis meses em que trabalhou na reportagem, Erdely se concentrou nos relatos de vítimas de violência sexual na Universidade da Virginia e em outros campi. Emocionou-se com suas experiências e suas diversas frustrações. O acesso de Erdely aos gestores da UVA era muito mais restrito, em parte porque alguns deles não tinham autorização para falar com ela, mas também porque Erdely passou a considerá-los obstáculos para seu trabalho de reportagem.

Na visão de algumas fontes de Erdely, o retrato que ela criou foi injusto e errado. “A resposta da universidade não é ‘Não nos importamos,’ disse Pinkleton, confidente de Jackie e membro do One Less. “Quando informei sobre meu ataque, eles imediatamente começaram a me dar recursos.”

De sua parte, Eramo rejeita a sugestão da reportagem de que a UVA coloca sua própria reputação acima da proteção aos estudantes. Em email fornecido por seus advogados, a reitora escreveu que a matéria falsamente lhe atribui afirmações que nunca fez (a Jackie ou a outros) e que o texto “trivializa as complexidades do fornecimento de apoio a sobreviventes, levando em conta seu trauma, bem como as reais dificuldades inerentes em equilibrar os desejos das sobreviventes com o provimento de segurança a nossas comunidades.”

“A UVA tem bastante a melhorar em relação à prevenção e resposta, da mesma forma que a maioria, senão todas as faculdades,” afirmou Sara Surface, uma estudante que co-preside a Coalizão pela Prevenção da Violência Sexual da UVA. E acrescentou: “Os administradores e funcionários que trabalham diretamente com sobreviventes e advogam por elas não estão mais interessados na reputação da faculdade, em detrimento do bem-estar de seus estudantes.”

***

A Edição: “Gostaria Que Alguém Tivesse Me Cobrado Mais”

Sean Woods, o principal editor de Erdely, poderia ter evitado a retratação da reportagem de Jackie se tivesse forçado a repórter a preencher os buracos de seu texto. Ele começou sua carreira em jornalismo cobrindo assuntos musicais mas já editava matérias complexas na Rolling Stone havia anos. Os repórteres investigativos que trabalham em matérias difíceis, emotivas ou controvertidas muitas vezes têm pontos cegos. Cabe aos seus editores insistir em mais telefonemas, mais viagens, mais tempo, até que a reportagem esteja completa. Woods não fez o suficiente.

O publisher da Rolling Stone, Jann Wenner, afirmou que em geral lê metade das matérias de cada edição antes da publicação. Ele leu um rascunho da narrativa de Erdely e considerou o texto “extremamente forte, poderoso, provocante. ... Achei que tínhamos ali algo realmente muito bom.” Mas Wenner confia a supervisão editorial detalhada para o editor geral Will Dana, que trabalha há quase duas décadas na revista. Dana poderia ter examinado em maior profundidade os textos preliminares que leu, localizado as falhas de reportagem e insistido para que fossem corrigidas. Ele não fez isso. “É comigo mesmo,” disse Dana. “Eu sou responsável.”

Vista em perspectiva, a decisão tomada pela Rolling Stone que gerou maiores consequências foi aceitar que Erdely não tivesse contatado os três amigos que falaram com Jackie na noite em que ela disse ter sido estuprada. Essa seria a linha de reportagem que, se tivesse sido adotada, quase certamente teria levado os editores da revista a mudar seus planos.

Erdely afirmou que, quando se preparava para escrever o primeiro rascunho, conversou com Woods sobre os três amigos. “Sean me recomendou que por enquanto devíamos deixar isso de lado,” disse ela. “Ele até sugeriu que por ora eu mudasse os nomes deles.” Woods afirmou que pretendia que essa decisão fosse temporária, dependendo de mais trabalho de reportagem e análise.

Erdely usou pseudônimos em seu primeiro rascunho: “Randall”, “Cindy” e “Andrew”. Baseou-se exclusivamente nas informações dadas por Jackie e escreveu vividamente sobre a maneira como os três amigos haviam reagido quando encontraram Jackie abalada e chorando nas primeiras horas de 29 de Setembro:

Os membros do grupo se entreolharam em pânico. Todos sabiam do encontro de Jackie naquela noite na Phi Kappa Psi, a imponente casa atrás deles. “Temos de levá-la ao hospital,” declarou Randall. Os outros dois amigos, porém, não se convenceram. “Será que é uma idéia tão boa?” contraditou Cindy. ... “A reputação dela vai ficar destruída pelos próximos quatro anos.” Andrew concordou com a opinião. Os três amigos começaram uma acalorada discussão sobre o custo social de reportar o estupro de Jackie, enquanto Jackie, atrás deles, permanecia muda, em seu vestido ensanguentado.

Erdely anotou em seu rascunho, em letras grandes “diz ela – tudo seu ponto de vista” – para indicar a seus editores que diálogo viera somente de Jackie.

“Em retrospecto, eu gostaria que alguém tivesse me cobrado mais” para contatar os três a respeito de suas versões, disse Erdely. “Acho que fiquei surpresa por ninguém ter dito ‘Por que você não telefonou para eles?’ Mas ninguém fez isso e eu não quis insistir nesse assunto.”  É claro que não é só porque um editor não pede a um repórter que cheque informações depreciativas sobre uma pessoa que isso absolve o repórter de responsabilidade.

Woods tem lembrança diferente dessa sequência. Depois de ler o primeiro rascunho, disse, “Eu pedi à Sabrina para ir procurar” os três amigos. “Ela respondeu que não podia. ... Perguntei repetidamente: ‘Podemos encontrar essas pessoas? Podemos?’ E me disseram que não.” Ele aceitou isso porque “Achei que tínhamos o suficiente.” A evidência documental fornecida pela Rolling Stone não esclarece qual das lembranças – de Erdely ou de Wood – é correta.

Woods afirma que acabou aprovando os pseudônimos porque não queria embaraçar os três estudantes com a publicação da descrição de Jackie sobre a tagarelagem egocêntrica deles, para que todos os seus amigos e colegas vissem. “Eu quis protege-los,” disse ele.

De sua parte, Dana afirmou não se lembrar de ter falado com Woods ou Erderly sobre os três amigos.

“Precisamos confirmar isto”

Nenhum dos editores discutiu com Erdely se a Phi Kappa Psi ou a UVA, quando solicitadas a comentar, tinham recebido detalhes suficientes sobre a narrativa de Jackie, para poder mostrar falhas ou contradições. Erdely nunca mencionou o assunto com seus editores.

Quanto a “Drew”, o salva-vidas, Dana afirmou que sequer tinha conhecimento de que a Rolling Stone não sabia o nome completo do rapaz e não havia confirmado sua existência. Nem lhe informaram que “tivéssemos feito qualquer acordo com Jackie para não tentar localizar essa pessoa.”

Como já foi dito, não houve um pacto explícito sobre isso entre Erdely e Jackie, segundo as anotações de Erdely. Jackie pediu que Erdely não contatasse o salva-vidas, mas não houve um acordo.

“Você pode ligar para a piscina? Pode ligar para a fraternidade? Pode examinar os anuários?” Woods se recordou de ter perguntado a Erdely quando leu o primeiro rascunho. “Se você tiver de contornar a Jackie, tudo bem, mas precisamos confirmar isto,” referindo-se à identidade de Drew. Ele se lembrou de ter tido essa discussão “pelo menos três vezes.”

Mas quando Jackie se distanciou de Erdely no fim de Outubro, Woods e Dana desistiram. Autorizaram Erdely a dizer a Jackie que iriam parar de tentar encontrar o salva-vidas. Woods resolveu a questão do mesmo jeito que fizera com os três amigos: usando um pseudônimo na matéria.

“Eu confiei”

No jornalismo não é possível alcançar todas as fontes que um repórter ou editor pode desejar. Uma solução é ser transparente com os leitores sobre o que é conhecido ou não conhecido no momento da publicação.

Na edição de revistas e narrativas há uma tensão entre a elaboração de uma matéria de boa leitura – um texto que flua – e o fornecimento de clara atribuição de citações e fatos. Escrever “ela disse” uma porção de vezes pode se tornar desajeitado e invasivo. Deveria haver espaço no jornalismo de revistas para a diversidade da sonoridade narrativa – se o trabalho de reportagem em que o texto se baseia for sólido. Mas as mais notórias falhas escandalosas de transparência em “Um Estupro no Campus” não podem ser debitadas ao estilo de redação. Elas toldavam importantes problemas com o trabalho de reportagem da matéria.

      -- Os editores da Rolling Stone não esclareceram aos leitores que Erdely e seus editores não sabiam o verdadeiro nome de “Drew”, não tinham falado com ele e não haviam conseguido confirmar que ele existia. Isso era fundamental para a compreensão pelos leitores. Em um dos rascunhos da matéria Erdely incluiu uma revelação. Escreveu que Jackie “se recusa a informar o nome completo [de Drew] à RS,” porque ela está “dominada por temores que mal consegue articular.” Woods cortou esse trecho ao editar a matéria. “Pensei em acrescentá-lo no final,” mas “acabei resolvendo não fazê-lo,” disse.

      -- Woods concordou em incluir na matéria a citação de “Randall” sobre “merda no ventilador” sem esclarecer que Erdely não a havia ouvido dele e sim de Jackie. “Eu tomei essa decisão,” disse Woods. Isso não só iludiu os leitores sobre a origem da citação, mas também agravou a falsa impressão de que a Rolling Stone sabia quem era “Randall” e havia tentado obter as versões dele e dos outros amigos sobre a história.
Os editores investiram a reputação da Rolling Stone em uma única fonte. “Sabrina é uma redatora com quem venho trabalhando há tanto tempo, em quem ponho tanta fé, que realmente confiei em seu julgamento de que Jackie tinha credibilidade,” afirmou Woods. “Questionei-a muito sobre isso e ela sempre disse que a considerava completamente crível.”

Woods e Erdely sabiam que Jackie havia falado sobre seu ataque com outros ativistas no campus, com pelo menos uma colega de quarto e com a UVA. Não podiam imaginar que Jackie tivesse inventado uma história assim. Woods afirmou que ele e Erdely “ambos chegamos à decisão de que esta pessoa estava dizendo a verdade.” Eles a consideravam uma “denunciante” que combatia a indiferença e a inércia na universidade.

O problema do viés da confirmação – a tendência das pessoas caírem na armadilha de presunções pré-existentes e darem preferência a fatos que suportam suas próprias opiniões, em detrimento dos que as contradizem – é uma constatação bem aceita das ciências sociais. 

Isso parece ter sido um dos fatores neste caso. Erdely acreditava que a universidade estava obstruindo a justiça. Achava que havia sido bloqueada. Como muitas outras universidades, a UVA tinha um retrospecto de falhas no trato de casos de ataque sexual. A experiência de Jackie parecia confirmar esse contexto mais amplo. Sua história parecia bem solidamente estabelecida no campus, repetida e aceita.

“Se eu tivesse sido informado anteriormente de algum problema ou discrepância na matéria, teríamos agido sobre isso muito agressivamente,” disse Dana. “Havia várias outras histórias que poderíamos ter contado nessa reportagem.” Se alguém tivesse exprimido dúvidas sobre até que ponto a narrativa de Jackie era confirmável, seu caso poderia ter sido resumido “em um parágrafo, num canto da matéria.”

Nenhuma dúvida como essa foi trazida a sua atenção, afirmou ele. Quanto às aparentes falhas no trabalho de reportagem e confirmação que se haviam acumulado nos rascunhos da matéria, disse Dana: “Eu confiava que, na fase de checagem dos fatos, tudo isso iria ser corrigido.”

***

Checagem Dos Fatos: “Não Ganho P´ra Isso”

Na Rolling Stone, cada matéria é confiada a um checador. Nas redações de jornais, agências de notícias e mídia eletrônica, não há uma descrição de função como a dos checadores de fatos das revistas. Nos jornais, os repórteres e editores da linha de frente são responsáveis pela exatidão e completude das matérias. Os setores de checagem das revistas em geral empregam jovens repórteres ou recém-formados. Seu trabalho é rever a matéria de um redator após ter sido rascunhada, para re-checar detalhes como datas e descrições físicas. 

Além disso eles observam questões como a atribuição [de citações] e se as pessoas retratadas de forma desfavorável foram ouvidas. Geralmente os checadores falam com as fontes dos redatores, por vezes também com fontes confidenciais, para confirmar fatos mencionados em citações e outros pormenores. Para serem eficazes, os checadores precisam ter o poder de desafiar as decisões de redatores e editores que podem ser muito mais velhos e experientes.

Neste caso, a checadora a quem se confiou “Um Estupro no Campus” vinha fazendo esse trabalho como freelancer havia cerca de três anos e se tornara funcionária um ano e meio antes .

Ela confiou muito em Jackie, da mesma forma que Erdely. Disse que “também era conhecedora de que a UVA acreditava que essa história fosse verdadeira.” Isso foi um mal-entendido. O que a Rolling Stone sabia no momento da publicação era que Jackie havia dado uma versão de seu relato à UVA e a outros estudantes ativistas. Uma funcionária da UVA, Renda, tinha feito referência a esse relato em um depoimento no Congresso. A UVA havia posto a Phi Kappa Psi sob investigação. Nada disso significava que a universidade houvesse chegado a alguma conclusão sobre a narrativa de Jackie. A checadora não forneceu à escola detalhes sobre o relato que Jackie deu a Erdely sobre seu ataque na Phi Kappa Psi.

A checadora tentou aprimorar o trabalho de reportagem da matéria e a atribuição de citações dos três amigos. Marcou num rascunho que Ryan – sob o pseudônimo “Randall” – não tinha sido entrevistado e que seu comentário sobre “merda no ventilador” tinha vindo de Jackie. “Atribuir isto a Jackie?” escreveu a checadora. “Há algum jeito de confirmar com ele?” Ela declarou que havia falado sobre esse problema de clareza com Woods e Erdely. “Eu pressionei. ... Eles chegaram à conclusão de que se sentiam confortáveis” em não tornar claro para os leitores que nunca haviam contatado Ryan.”

Ela não levou essas preocupações a sua chefe, Coco McPherson, que lidera o departamento de checagem. “Instruí meus funcionários a vir a mim quando encontram problemas ou ficam preocupados ou acham que precisam de algum apoio mais forte,” afirmou McPherson. “Isso não aconteceu.” Indagada se havia alguma coisa sobre a qual ela deveria ter sido notificada, McPherson respondeu: “As respostas óbvias são os três amigos. Essas decisões de não procurar essas pessoas foram tomadas por editores que ganham mais que eu.”

McPherson leu o texto final. Era uma matéria provocante, complexa, fortemente baseada em uma única fonte. Ela declarou mais tarde que confiava em todos os envolvidos e não viu necessidade de questionar qualquer ponto com os editores. Ela era a chefe do departamento com responsabilidade final pela checagem dos fatos.

Natalie Krodel, advogada da Wenner Media, fez uma análise jurídica da matéria antes da publicação. Krodel era funcionária havia vários anos e em geral se ocupava de cerca de metade das análises pré-publicação das matérias da Rolling Stone, compartilhando o trabalho com o advogado geral Dana Rosen.5 Não ficou claro quais os questionamentos que a advogada pode ter feito sobre o texto. Erdely e os editores se negaram a responder a perguntas sobre aspectos específicos da análise jurídica, citando instruções recebidas da advogada externa da revista, Elizabeth McNamara, sócia do escritório Davis Wright Tremaine. McNamara afirmou que a Rolling Stone não responderia a perguntas sobre a análise jurídica de “Um Estupro no Campus” a fim de proteger a relação privilegiada entre advogado e cliente.

***

A Nota do Editor: “Surtei completamente”

Em 5 de Dezembro, depois que Erdely declarou, logo cedo, que tinha perdido a confiança em sua fonte, Rolling Stone postou em seu website uma nota do editor que efetivamente renegava a reportagem da revista sobre o caso de Jackie.

A nota foi redigida e publicada precipitadamente. Os editores tinham ouvido dizer que The Washington Post pretendia publicar uma matéria no mesmo dia, questionando a reportagem da revista. Souberam também que a Phi Kappa Psi iria emitir um pronunciamento pondo em dúvida parte do relato da Rolling Stone. Dana afirmou que não havia tempo para realizar uma “investigação forense” sobre os problemas da matéria. Ele escreveu a nota do editor “muito rapidamente” e “sob muita pressão.”

Postou-a por volta do meio-dia, com sua assinatura. “Tendo em vista novas informações, agora parece haver discrepâncias no relato de Jackie e chegamos à conclusão de que nossa confiança nela não se justificava”, afirmava. Essa linguagem transferia a culpa da revista para sua entrevistada e atraiu ainda mais críticas. Dana disse que se arrependia de sua escolha de palavras. “Surtei completamente,” disse ele. “E logo lamentei ter usado a frase.” No começo da noite ele mudou de curso em uma série de tweets. “Essa falha é nossa – não dela,” escreveu. Uma nota do editor modificada, usando linguagem semelhante, foi publicada no dia seguinte.

No entanto a versão final ainda se esforçava em defender o desempenho da Rolling Stone. Dizia que os amigos de Jackie e estudantes ativistas na UVA “apoiavam vigorosamente seu relato.” Isso implicava que esses amigos tinham conhecimento direto do estupro relatado. Na verdade os estudantes apoiavam Jackie como uma sobrevivente, amiga e companheira na campanha pela reforma do campus. Tinham ouvido sua história, mas não tinham como confirma-la de maneira independente. 

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Olhando à Frente

Para Rolling Stone: Um Lapso Excepcional ou uma Falha na Política?

O colapso de “Um Estupro no Campus” não implica o tipo de forjamento por repórteres, ocorrido em alguns outros casos infames de desastres jornalísticos. Em 2003 o repórter Jayson Blair do New York Times se demitiu quando os editores concluíram que ele havia inventado matérias inteiras.  Em Fevereiro a NBC News suspendeu o âncora Brian Williams quando ele admitiu ter mentido sobre sua cobertura da guerra no Iraque. Não há evidências nos materiais de Erdely ou nas entrevistas que fez de que ela tenha inventado fatos; o problema foi ela ter confiado no que Jackie lhe disse, sem confirmar sua precisão.
“Foi uma experiência extraordinariamente dolorosa e humilhante,” disse Woods. “Eu aprendi que mesmo as pessoas mais confiáveis e experientes – inclusive e talvez especialmente eu – podem fazer graves erros de julgamento.”

No entanto os editores de Rolling Stone são unânimes em acreditar que o fracasso da matéria não requer que eles modifiquem seus sistemas editoriais. “Não que eu ache que precisamos reformar nosso processo e não creio que precisemos necessariamente instituir uma porção de maneiras novas de fazer as coisas,” afirmou Dana. “Apenas temos de fazer o que sempre fizemos, mas nos certificarmos de que não cometeremos esse erro novamente.” Coco McPherson, a chefe da checagem, afirmou: “Eu cem por cento não acho que as políticas que adotamos tenham falhado. Acredito que as decisões tomadas circundando essas normas se deveram ao assunto da reportagem.”

No entanto diretrizes melhores e mais claras sobre as práticas de reportagem, pseudônimos e atribuição poderiam muito bem ter evitado os erros da revista. O setor de checagem deveria ter sido mais firme em questionar decisões editoriais que a checadora da reportagem justificadamente observou. Dana disse que não fora informado de buracos na matéria, como deixar de contatar os três amigos, nem sobre o emprego de atribuições ilusórias para obscurecer esses fatos. Normas mais fortes e uma compreensão mais clara por parte dos funcionários em pelo menos três áreas poderiam ter mudado o resultado final:

Pseudônimos. Dana, Woods e McPherson afirmaram que o uso de pseudônimos na Rolling Stone é uma questão resolvida “caso a caso”, que dispensa reunião ou revisão especial. Pseudônimos são inerentemente indesejáveis no jornalismo. Eles introduzem ficção e pedem aos leitores que confiem em que esta é a única instância em que uma publicação está inventando detalhes a seu bel-prazer. Seu emprego neste caso foi uma muleta – permitiu que a revista se evadisse de encarar as falhas de reportagem. A Rolling Stone deveria pensar na possibilidade de baní-los. Se seus editores acham que os pseudônimos são uma ferramenta indispensável para suas formas de redação de narrativas, a revista deve considerar emprega-los muito mais raramente e só após robusta discussão sobre alternativas, encorajando-se as discordâncias.

Checagem de Informações Depreciativas. Erdely e Woods fizeram o fatídico acordo de não checar com os três amigos. Se o setor de checagem tivesse compreendido que essa prática é inaceitável, o resultado quase certamente teria sido outro.

Confrontar Entrevistados Com Detalhes. Quando Erdely pediu “comentários” perdeu a oportunidade de ouvir refutações detalhadas da Phi Kappa Psi antes da publicação. A checadora confiou somente nas comunicações de Erdely com a fraternidade e não confirmou pessoalmente com a Phi Kappa Psi a descrição que a Rolling Stone pretendia publicar sobre o ataque de Jackie. Se tanto a repórter como a checadora tivessem entendido que a política exigia que, como rotina, elas deveriam compartilhar detalhes depreciativos específicos com os alvos de sua reportagem, a Rolling Stone poderia ter mudado de direção.

Para Jornalistas: Cobrindo Estupros no Campus

Rolling Stone não é a primeira organização jornalística a ser duramente criticada por sua cobertura de estupros. De todos os crimes, talvez o estupro seja o mais difícil de cobrir. As dificuldades comuns que os repórteres encontram – inclusive a escassez de provas e os relatos contraditórios – podem ser ampliadas no cenário das faculdades. Reportar um caso que não foi investigado e adjudicado, como fez a Rolling Stone, pode ser ainda mais desafiador.

Há diversas áreas que exigem cuidado e devem ser objeto de contínua reflexão entre os jornalistas:

Equilibrar a sensibilidade para com as vítimas e os requisitos de confirmação.
Ao longo dos anos os conselheiros para traumas e grupos de apoio a sobreviventes têm auxiliado os jornalistas a compreender a vergonha ligada ao estupro e a sensação de impotência e auto-culpa que podem dominar as vítimas, particularmente as jovens. Como o questionamento do relato de uma vítima pode ser traumático, os conselheiros têm recomendado prudência para permitir que as sobreviventes mantenham algum controle sobre suas próprias histórias. Esse é um bom conselho. No entanto não é bom para as sobreviventes que os repórteres que documentam seus casos evitem rigorosas práticas de confirmação. Isso pode apenas submeter a vítima a maior escrutínio e ceticismo.

Surgem problemas quando os termos de um pacto entre sobrevivente e jornalista não são explicitados. Kristen Lombardi, que passou um ano e meio trabalhando na série de reportagens do Centro para a Integridade Pública sobre ataque sexual nos campi, afirmou que ela deixava claro para as mulheres que entrevistava que o processo de reportagem requeria que ela obtivesse documentos, reunisse provas e falasse com o máximo possível de pessoas envolvidas no caso, inclusive os acusados. Ela prefaciava suas entrevistas assegurando às mulheres que acreditava nelas, mas que era do próprio interesse delas certificar-se de que não houvesse dúvidas sobre a veracidade de seus relatos. Ela também permitia que as vítimas mantivessem algum controle, inclusive determinando o local, horário e ritmo de suas entrevistas.

Se alguma mulher não estivesse pronta para esse processo, disse Lombardi, ela se dispunha a ir embora.

Corroborando relatos de sobreviventes. Walter Bogdanich, um repórter investigativo do New York Times agraciado com o Prêmio Pulitzer, que passou os últimos dois anos reportando casos de estupro no campus, declarou que procura localizar cada fiapo disponível de evidência – registros hospitalares, telefonemas para o serviço de emergência, mensagens de texto ou e-mails que tenham sido enviados imediatamente após o ataque. Em alguns casos, pode ser possível obter vídeos, seja de câmeras de segurança ou de celulares.

Muitos ataques ocorrem ou começam em locais semipúblicos como bares, festas ou casas de fraternidades. “A violência sexual no campus provavelmente tem mais testemunhas, passantes etc. do que a violência em outros contextos,” afirma Elana Newman, professora de psicologia da Universidade de Tulsa, que aconselhou jornalistas sobre trauma. “Pode ser útil para os jornalistas pensar em todos os sinais e signos ocorridos anteriormente” e sobre as pessoas que os viram ou ignoraram, disse ela.

Cada caso de estupro tem múltiplas narrativas, disse Newman. “Se houver inconsistências, explique essas inconsistências.” Os repórteres devem também ter em mente que o trauma pode prejudicar a memória de uma vítima e que isso pode ser uma causa de relatos fragmentados e contraditórios.

As vítimas frequentemente interagem com administradores, conselheiros e funcionários de alojamentos. “Eu sempre encontrei maior disposição para falar junto a esses funcionários da linha de frente,” afirmou Lombardi, que disse ter telefonado ou visitado fontes potenciais em casa e falado com elas sobre informações de background devido a suas preocupações com a privacidade dos estudantes.

As restrições da FERPA são severas, mas a lei permite que os estudantes consultem os registros de suas próprias escolas. Os estudantes de universidades públicas podem também assinar documentos que dispensam a privacidade, que podem permitir que os repórteres obtenham registros deles próprios, inclusive arquivos e relatórios sobre um caso.

Além disso a FERPA abre uma exceção: Em casos de ataque sexual que tenham chegado a uma decisão final e em que um estudante tenha sido declarado responsável, as autoridades do campus podem divulgar o nome do estudante, a violação cometida e quaisquer sanções impostas. (O Centro Jurídico da Imprensa Estudantil fornece bom aconselhamento sobre como trabalhar com a FERPA.)

Forçar as instituições a prestar contas. Devido às dificuldades, os jornalistas poucas vezes têm condição de provar culpa ou inocência em casos de estupro. “O real valor do que fazemos como jornalistas é analisar a resposta das instituições à acusação”, afirma Bogdanich. Essa postura pode também tornar mais fácil convencer tanto as vítimas como os perpetradores a falar. Lombardi declarou que as mulheres que entrevistou se dispuseram a falar porque a matéria era sobre como o sistema funcionava ou não funcionava. O acusado, por outro lado, frequentemente se abria para falar sobre falhas percebidas no processo judicial.

Para ter êxito nesse tipo de reportagem é necessário possuir profunda compreensão do emaranhado de regras e orientações sobre ataques sexuais no campus. Há o Titulo XI, a Lei Clery e a Lei sobre Violência Contra Mulheres. Há diretivas do Escritório de Direitos Civis e recomendações da Casa Branca. O Congresso e as legislaturas estaduais estão propondo novas leis.

As responsabilidades que as universidades têm em prevenir o ataque sexual no campus – e os padrões de desempenho que lhes devem ser exigidos – são assuntos importantes de interesse público. A Rolling Stone estava certa em cobrá-las. A forma do fracasso da revista é um mapa de como fazer isso melhor.

NOTAS:
1.      
  1. Este relatório pretende ser um trabalho jornalístico sobre um fracasso do jornalismo. Em Novembro último a Rolling Stone publicou “Um Estupro no Campus”, por Sabrina Rubin Erdely. Sua principal narrativa descrevia um horrendo estupro coletivo numa fraternidade da Universidade da Virgínia. No começo de Dezembro Rolling Stone efetivamente se retratou por essa narrativa.

Várias semanas mais tarde a revista procurou a Escola de Jornalismo da Universidade de Columbia para realizar uma investigação sobre o que tinha dado errado. Rolling Stone proporcionou acesso às anotações de Erdely para a reportagem, bem como a rascunhos da matéria. Os autores tiveram a liberdade de investigar e escrever sobre qualquer assunto relacionado com “Um Estupro no Campus” que julgassem relevantes e de interesse público.

Durante vários meses os autores fizeram entrevistas e investigações em amplo espectro. No entanto o relatório final não se propõe enciclopédico. O relatório procura atingir diversos objetivos. Um deles é iluminar os motivos-chaves pelos quais o insucesso da Rolling Stone era evitável e extrair lições. A esse respeito o relatório focaliza várias falhas do trabalho de reportagem, edição e supervisão da Rolling Stone, mas não absolutamente todos os passos errados que poderiam ser inventoriados. Outro propósito do relatório é avaliar de forma independente e por meio de um novo trabalho de reportagem alguns dos personagens que Rolling Stone cobriu na matéria, além do relato dado por Jackie do ataque sexual que sofreu – particularmente a linha de tempo da maneira como a UVA trabalhou com a informação de Jackie. O relatório abrange também as formas pelas quais as diretrizes editoriais da Rolling Stone poderiam ser revistas para evitar futuros fracassos. E avalia de que modo os jornalistas poderiam começar a definir melhores práticas para escrever reportagens sobre casos de estupro no campus ou em outros locais.

Os funcionários da Rolling Stone cooperaram plenamente durante esse trabalho. Coll e Coronel aceitaram o pedido da Rolling Stone de não citar nominalmente a checadora de fatos em seu relatório, com o argumento de que ela era uma funcionária de baixo escalão sem autoridade para decidir. Vários participantes da revista se negaram a responder a certas perguntas que, segundo eles, violavam o privilégio advogado-cliente. Nem Columbia nem os autores receberam remuneração pelo trabalho. Rolling Stone concordou em reembolsar despesas.

22. Rolling Stone forneceu um registro de 405 páginas das entrevistas e anotações de pesquisa de Erdely, bem como permitiu acesso às gravações originais de áudio. Erdely entregou esses registros à Rolling Stone antes que ela ou a revista soubessem que havia quaisquer problemas com a matéria. Erdely afirmou que digitava anotações na época num laptop enquanto fazia entrevistas telefônicas ou pessoalmente. Em alguns casos, gravou entrevistas e reuniões em fita e mais tarde as transcreveu. Nós comparamos as transcrições que Erdely apresentou de suas entrevistas gravadas com as fitas de áudio e constatamos que as transcrições eram corretas. As anotações das entrevistas que foram digitadas por Erdely contêm suas próprias perguntas ou comentários, por vezes entre parênteses, bem como os de seus entrevistados. Erdely disse que por vezes digitava suas próprias perguntas ou comentários simultaneamente com as entrevistas, mas que em outras ocasiões os digitava após o fim das entrevistas, resumindo as perguntas que havia formulado ou os comentários que fizera.

33.   A retratação, pela Rolling Stone, de sua reportagem sobre Jackie, refere-se à matéria que publicou. A retratação não pode ser entendida como evidência do que realmente aconteceu com Jackie na noite de 28 de Setembro de 2012. Se Jackie foi atacada e, nesse caso, por quem, não pode ser definitivamente estabelecido pela evidência disponível.

Os registros telefônicos de Jackie a partir de Setembro de 2012 proporcionariam forte evidência sobre o que poderia ter acontecido com ela. Mas a polícia de Charlottesville afirmou que a empresa por ela solicitada a fornecê-los não mais dispunha de seus registros de 2012. Após entrevistar 70 pessoas e ganhar acesso a alguns registros da universidade e da fraternidade, a polícia de Charlottesville só pôde afirmar que não encontrou prova do estupro coletivo que Rolling Stone descreveu. Essa constatação, afirmou o chefe de policia Timothy Longo, “não significa que algo terrível não tenha acontecido com Jackie” naquela noite.

44. Numa carta, Groves objetou à descrição que a Rolling Stone fez de seus atos durante uma reunião do Conselho de Visitantes da Universidade da Virgínia em Setembro passado. Um vídeo da reunião está disponível em um website da UVA. Groves escreveu que Erdely “não revelou os significativos detalhes que eu havia incluído no escopo” de uma revisão realizada pelo Ministério da Educação sobre a obediência à legislação pela UVA. A íntegra da carta de Groves está em link neste relatório.

No email enviado através de seu advogado, escreveu Eramo, a Rolling Stone “fez numerosas afirmações falsas e implicações enganadoras sobre a maneira pela qual desempenhei meu trabalho como presidente do Conselho de Má Conduta Sexual da Universidade da Virginia, inclusive alegações sobre casos de estudantes específicos. Apesar da lei me proibir de comentar esses casos específicos a fim de proteger a privacidade dos estudantes que aconselho, posso dizer que o relato das minhas ações na Rolling Stone é falso e enganador. A reportagem trivializa as complexidades de fornecer apoio às sobreviventes, com conhecimentos sobre trauma e as reais dificuldades inerentes a se equilibrar o respeito pelos desejos das sobreviventes com o provimento de segurança a nossas comunidades. Em termos gerais, eu não permiti – e nunca fiz isso – que uma matéria de mídia pudesse influenciar a forma pela qual tenho aconselhado estudantes ou as decisões que tomei em minha posição. E, ao contrário da afirmação a mim atribuída na Rolling Stone, nunca chamei a Universidade da Virginia de “escola do estupro”, nem jamais sugeri – quer profissionalmente ou em particular – que pais não iriam ‘querer mandar sua filha’ para a UVA. Na qualidade de ex-aluna da UVA e como alguém que tem vivido na comunidade de Charlottesville por mais de 20 anos, tenho profundo e intenso amor por esta Universidade e pelos alunos que aqui estudam.”
5.      Em Dezembro último, Rosen deixou a Wenner Media para trabalhar na ALM Media, onde é advogada geral. Rosen afirmou que sua saída não tem ligação com “Um Estupro no Campus” e que não tivera qualquer participação na revisão da matéria antes da publicação. Ela declarou que começou a conversar com a ALM em Setembro, antes da reportagem de Erdely ser concluída, sobre a posição que afinal veio a assumir.