quarta-feira, 16 de maio de 2018

Polícia Federal: Media Training não Resolve Falta de Bom-Senso



Segundo a Folha de S.Paulo o diretor-geral da PF, Rogério Galloro, irá promover um treinamento sobre relações com a mídia (media training), destinado a aprimorar a qualidade da interface entre diretores e superintendentes do órgão e jornalistas.

A meta principal, diz a matéria, é evitar mal-entendidos e equívocos de comunicação que provoquem repercussões prejudiciais junto à opinião pública, citando como exemplos negativos uma entrevista coletiva referente à Operação Carne Fraca, no início de 2017, que teria gerado crise no mercado internacional de carne; e entrevistas do ex-diretor-geral Fernando Segovia, que acabaram por causar sua demissão.

Essa notícia da Folha parece sugerir que o treinamento projetado pretende aperfeiçoar a forma de interface entre dirigentes da PF e jornalistas, o que, porém, é o último dos problemas dessa equação.

Porque, da mesma forma que na empresa privada, o essencial, o indispensável para uma comunicação eficaz, são os valores e a postura pública dos executivos responsáveis pela entidade e por seu diálogo com a sociedade, diretamente ou via mídia. Os acessórios de Comunicação só vêm depois disso. E são acessórios.

O fundamental não é como e quando falar, mas o que falar – e aí somente media training não resolve. É preciso, antes de tudo, bom-senso, avaliação de oportunidades e do contexto local, nacional e internacional em que se dá uma comunicação, previsão de repercussões – enfim, características de gestores de alto nível, tanto em órgãos públicos como em empresas privadas.

Ingredientes que obviamente não guiaram os dois exemplos citados na matéria da Folha: o inacreditável episódio Fernando Segóvia e o desastre da Carne Fraca.

Se não se partir desse princípio fundamental, o bom-senso acima de tudo, não há media training que resolva. Porque a ausência desse alicerce é o caminho para, como muitos executivos gostam de fazer, dar de ombros sempre que há uma crise institucional e encerrar o assunto usando a desculpa fácil de dizer que é “um problema de comunicação”.  

quinta-feira, 22 de fevereiro de 2018

Empresa, Comunidade e Opinião Pública: Candidatos do mercado se comunicam consigo mesmos

Empresa, Comunidade e Opinião Pública: Candidatos do mercado se comunicam consigo mesmos: É no mínimo muito divertido assistir à evolução na avenida desses pré-candidatos a presidente da república lançados por si próprios, com...

Candidatos do mercado se comunicam consigo mesmos



É no mínimo muito divertido assistir à evolução na avenida desses pré-candidatos a presidente da república lançados por si próprios, com ideias que agradam ao mercado financeiro.

Parecem crer piamente que bandeiras como a reforma da previdência, privatizações, redução do tamanho do estado etc. irão sensibilizar o eleitorado a ponto de leva-los à Presidência (ou melhor, à “gestão” do País, como está em moda dizer).

Pesquisa e comunicação não parecem estar no cardápio de suas pré-campanhas, caso contrário conheceriam melhor esses muitos milhões de eleitores, seu grau de informação, suas agruras, necessidades e anseios.

E suas mensagens seriam formuladas e dirigidas a essas pessoas reais, não aos colegas do mercado, como acontece atualmente. Um marciano que desembarcasse no Brasil, ao ler suas entrevistas e frases na mídia, poderia pensar que banqueiros, o pessoal de agências de risco e analistas financeiros são quem elege candidatos a presidente por aqui.

Na verdade a impressão que se tem é de que, no fundo no fundo, eles gostariam mesmo é de ser deputados ou senadores – representando algum setor financeiro ou empresarial – não presidente da república.

A coisa toda é tão irreal – banqueiros, varejistas, apresentadores de TV apregoando a frio bandeiras obviamente impopulares, como se elas pudessem apaixonar as grandes massas – que se tem a sensação de um mau filme absurdo que tenta imitar os do Monty Python.

Lembrar que o único interesse do eleitor é saber O QUE ELE GANHARIA COM AS PROPOSTAS DE UM CANDIDATO, QUE VANTAGEM ELE LEVARIA COM A IMPLANTAÇÃO DESSAS IDÉIAS, não parece passar-lhes pela cabeça.

O mínimo que poderiam fazer, para levar suas candidaturas a sério, é virar essas bandeiras pelo avesso, utilizando todas as oportunidades para mostrar ao povo – aquele que realmente elege – quais as vantagens, para esse povo, das propostas que apresentam.

Só que, para isso, precisariam primeiramente conhecer o eleitor, por meio de muita pesquisa – das quais, pelo jeito, eles atualmente passam longe. 

A seguir teriam de formular mensagens, dirigidas a esse eleitor, não a seus colegas de Febraban ou de seminários de empresários, mostrando – emocionalmente, não racionalmente – que vantagens concretas terá o povo brasileiro com sua plataforma liberal.

Finalmente, teriam de ir procurar esses eleitores nos lugares onde eles estão – pela mídia adequada, não só por jornais de classe A/B – e martelar essas mensagens em todas as chances que tivessem. (E conseguir essas chances também precisaria fazer parte do esforço de campanha).

Tudo óbvio. Nada disso é original, ou, como dizem os americanos, difícil como rocket science. Mas não parece passar pelas cabeças desses nefelibatas.

quarta-feira, 20 de dezembro de 2017

Empresa, Comunidade e Opinião Pública: Boa imagem à procura de uma empresa

Empresa, Comunidade e Opinião Pública: Boa imagem à procura de uma empresa: Uma bola institucional está pingando na boca da trave para as empresas que atuam no Brasil e nenhuma delas ainda a empurrou para dentro do ...

Boa imagem à procura de uma empresa

Uma bola institucional está pingando na boca da trave para as empresas que atuam no Brasil e nenhuma delas ainda a empurrou para dentro do gol. Da mesma forma como a luz nasce do caos, esse clima horrível que vivemos – a corrupção finalmente exposta após séculos de patrimonialismo e capitalismo de laços, o descrédito generalizado por políticos e empresários, o definhamento da imprensa tradicional, a polarização de opiniões boçais que as redes sociais nos obrigam a conhecer – oferece oportunidade ímpar para uma empresa que deseje projetar seu perfil cidadão e assim se diferenciar positivamente.

Não gastando em propaganda despropositada com artistas de TV simpáticos – como se ninguém percebesse que a verdadeira razão desse tipo de publicidade é tentar “comprar” a simpatia da grande mídia e da população, o que produz a imagem oposta à desejada. Mas sim concebendo e divulgando adequadamente uma alma de civilidade para sua marca e associando-a a seus produtos e serviços.

Sempre que alguém se refere à área de Assuntos Institucionais como “de Comunicação” eu observo que Comunicação é a última atividade desse setor. Seu dever fundamental é antes esculpir a personalidade pública da empresa, promover iniciativas que engajem e envolvam seus funcionários e fornecedores para que deem substância a essa personalidade – não com discursos e sim por meio de ações concretas – e só então divulgar.

Mais que sempre a opinião pública brasileira busca hoje pessoas e empresas que tenham o respeito a valores como cerne. Valores como integridade, comportamento ético, participação comunitária, transparência, respeito aos direitos humanos e ao meio ambiente estão em grande demanda. Em uma palavra, sustentabilidade. Como se nota, nada muito extraordinário, mas infelizmente perfis empresariais assim não se conhecem muitos.


Neste clima de incredulidade que nos cerca, a empresa que primeiro assumir esse paradigma institucional beberá, como se diz, água mais limpa. 

sexta-feira, 9 de setembro de 2016

Muitas homenagens

Sinval de Itacarambi Leão, diretor da revista Imprensa, teve a gentileza de me convidar para estrear uma nova seção no Portal Imprensa. O texto foi publicado hoje e está no link

http://portalimprensa.com.br/noticias/opiniao/78240/nemercio+nogueira+do+instituto+vladimir+herzog+estreia+a+secao+sinval+convida


sábado, 21 de maio de 2016

Verdade (?)

Saia já correndo e vá assistir a Conspiração e Poder, principalmente se você é jornalista ou trabalha em algum ramo de Comunicação. É bem melhor que Spotlight,  também muito bom e que ganhou o Oscar.

O filme levanta, com tensão de história de suspense, diversas questões como a precisão jornalística na apuração de informações, checagem de fontes, o valor e o custo do jornalismo na televisão, a relação de dependência entre governantes e empresas de TV (concessão pública).*
Não vou aqui contar a história do filme (vá procurá-lo), mas, em resumo, pouco antes da eleição presidencial de 2004 nos EUA, a produtora Mary Mapes, do programa 60 Minutes, da CBS, os jornalistas de sua equipe e o consagrado âncora Dan Rather foram investigados e a seguir demitidos por terem publicado uma reportagem indicando que o presidente George W. Bush, que concorria à reeleição, havia escapado à convocação para servir na guerra do Vietnã, por ter sido favorecido por oficiais da Guarda Aérea Nacional do Texas.
À parte os dramas pessoais (Cate Blanchett faz o papel de Mary Mapes e Robert Redford é Dan Rather), algumas questões em que o filme faz pensar:
1.      A obrigação de checar e rechecar exaustivamente a veracidade de suas informações, seja você jornalista, profissional de Comunicação ou de qualquer outro ramo de atividade;
2.      A necessidade de ter uma atitude cética para com a acurácia dessas informações, nunca cedendo ao desejo, esperança ou crença de que elas estejam corretas; sempre procurar pelo em ovo, ter vontade de achar os erros e as falhas;
3.      Não abrir mão desse dever por pressão do tempo, do chefe ou do cliente; a rigor sua reputação depende mais da precisão e eficácia do que de cumprir horário;
4.      O dever de todos de coibir o favorecimento dos poderosos às elites, a fim de purificar a democracia – seja qual for a elite, qualquer o lugar no mundo e através de toda a História;
5.      A imbricação de interesses entre governantes e empresas de mídia, com reflexos sobre a liberdade de imprensa, o direito da sociedade à informação e a oligopolização do mercado publicitário e da opinião pública;
6.      O poder crescentemente avassalador da internet e das redes sociais e sua capacidade de patrulhamento e de destruição de reputações;
7.      A função social dos programas jornalísticos na televisão, apesar de seu alto custo de realização para as empresas de mídia. 
 *O filme é baseado no livro de memórias de Mary Mapes Truth and Duty: The Press, the President, and the Privilege of Power, que custa R$28,43 em edição Kindle na Amazon.